sinceramente, eu não arrisco: não sou um animal de sorte. a vida é mesmo dura, mas, e daí? dá pra encarar de qualquer maneira, se você tiver em mente que é apenas um punhado de anos muito perigosos. saiu um estudo que relacionava, não sei se é esse o termo - foda-se -, o consumo de vegetais ao câncer.
ontem era sábado. dia da semana para andar. andar por aí. os sábados são meus dias favoritos, a manhã mais perfeita. uma vez por semana. fui recitando césar vallejo: pienso si, en el bruto libre/que goza donde quiere, donde puede. tudo mentira, não durou muito. também não deu pra assobiar. mas era sábado.
andar é como fumar: você só vai morrer se fizer isso. então eu achava, vejam bem, que andando eu compensaria o hábito de fumar. isso só faria morrer duas vezes mais rápido, mas, na hora, a velha hora, me pareceu uma boa idéia. foda-se o cézar vallejo e foda-se essa coisa de ficar assobiando por aí como um doido, ora essa. é preciso se comportar adequadamente. então, a não ser que você tenha uma bolsa, ou uns óculos escuros, ou, sei lá, uma muleta etc, você terá um cigarro. ninguém anda apenas por andar. as pessoas querem interagir com o mundo, e meu modo de interagir é interagindo o mínimo possível. a maneira mais fácil de fazer isso é cultivando com bastante carinho um hábito desagradável, nojento, absurdo, e jogar isso na cara de todas as pessoas. é, eu estou falando da parte do cigarro.
cigarro é como um pé, ou uma pata, ou nadadeiras, ou asas. faz você andar - ou voar, mas não sei se avestruzes fumam - duas vezes mais rápido. quer parecer um doido? ande com as mãos nos bolsos, olhando para o chão, fumando um cigarro.
a parte engraçada disso é, claro, que eu estava errado. a verdade - que as pessoas sãs descobrem muito cedo - mas eu não fui, não sou, nunca serei uma pessoa sã - é que, se você quer interagir o mínimo possível com o mundo, você deve interagir o máximo possível com ele. ou seja, eu sofria de um excesso de mundo. isso não é bom. isso é transgressor. é como ficar gordo demais, deve ser como ser padre. hoje em dia eu estou mais tranquilo. não arrisco.
cortei toda a gordura e, depois de ler o estudo, virei vegetariano. é bastante fácil ser vegetariano, tudo agora tem sabor de carne. vou morrer mais de duas vezes mais rápido. infelizmente não vai ser tuberculose. aí sim seria do caralho. eu acho que é isso que faz as pessoas escreverem direito, não essa merda de andar por aí, fumar e ser vegetariano. isso é muito claro, mas só para/pra lembrar.
de qualquer maneira, ontem eu sai e não sou um animal de sorte. eu tinha conseguido passar o tempo muito depressa até encontrar alguns fatídicos amigos. a partir daí, lembro de tudo, uma miséria. e hoje é domingo, o dia da ressaca, bendito seja.
imagina-se que ser vegetariano e não comer gorduras faz com que você fique bêbado mais rápido. não arrisco. compensei isso começando a caminhar. eu estava errado: como fumava, uma coisa anulava a outra. uma porra de um jogo imbecil desses eu não entendia.
logo estava bêbado, como eu ia dizendo, com esses amigos, que todos os infernos os carreguem, e os macacos mordam as mães deles. não resisto a uma cervejinha. aliás, é a única coisa que dá pra fazer com seus amigos. une o útil ao agradável, se é que você me entende. acho que não. mas, enfim, eu sou um animal sem sorte. e acontece que eu ainda não tinha descoberto como compensar amigos. pelas minhas contas, eu compensava o hábito de caminhar fumando com o cigarro, mas ser vegetariano me obrigava a beber. e a gente só bebe com amigos. esse fator não tinha sido percebido no começo. os encarava como uns simples tropeços pelo mundo, aqui, ali, meio assim. ontem eu percebi que é necessário anular os amigos.
sem amigos os anos são mais perigosos. eu posso morrer um pouco mais rápido. eu li um estudo que relacionava - me perdoem, eu não estou acostumado aos termos científicos - não ter amigos com uma redução drástica na expectativa de vida. eu descobri ontem que preciso compensar isso de alguma maneira.
ontem, pela primeira vez, eu falei com as pessoas. então o jogo ficou mais ou menos assim: caminhar anula vegetarianismo, que anula cigarro, que anula a bebida, que você só usa com amigos, e anula amigos conversando com eles. a melhor maneira de se afastar de alguém é conhecendo essa pessoa. por aí.
acontece que a bebida multiplica, acelera o tempo. a gente fica mais perto da morte, principalmente se estiver com amigos. o tempo passa muito rápido, mas, é claro, é só ilusão. durante aquelas horas, você conheceu um pouco mais alguém. disse kafka - haha - Você é a lição de casa. Por todos os lados nenhum aluno. - e ele sempre foi muito mais certo do que qualquer um. não sei se interpretei errado o aforismo, mas acho que ele se encaixa aqui. pelo menos eu odiava lição de casa, quando era criança. era um horror. meu contato com o mundo, quando eu deveria estar criando mundos - caralho, que merda de frase, rafael -. mas era por aí mesmo, acho que fiquei traumatizado.
deixa eu ver se estou sendo claro, vamos recapitular: ontem era sábado, hoje é domingo, amanhã será segunda-feira, a temida das gentes, ou alguma coisa assim. e eu caminhava, para compensar o fato de ser ateu. não gosto de ficar no sábado sem fazer nada, eu precisava fazer alguma coisa, chutar umas latas nas calçadas, comer porcaria, comer alguém, fumar pra compensar o alcoolismo, andar depois do meio-fio, a gente precisa fazer alguma coisa, porque sábado é uma merda. uma vez por semana. sou anti-semita - me perdoem, não sei se de acordo com a nova ou velha ortografia o hífen cabe em antissemita - que é uma palavra muita/muito engraçada e óbvia, não sei porque enfatizo isso - por causa do ss - só pra fazer piadas pra chocar. não sei se ficou claro por causa dos hífens, mas eu não arrisco e hoje é domingo, dia da ressaca, não sei se já disse isso.
a melhor maneira de interagir o máximo com o mundo é interagindo o mínimo possível com ele. a maneira mais fácil de fazer isso é adotando algum hábito desagradável, cruel, marginal. como ter medo de morrer mais cedo. compensava o fato de ser comunista - me desculpem, não sei como se chama essas coisas hoje em dia - sei lá, como se chama essa coisa de ser a favor dos palestinos - andando. ou alguma coisa assim. sinceramente, eu não arrisco. mas ontem era sábado.
e tenho esses amigos, um punhado de crápulas que não valem um víntem, e quem anda com porcos farelo come, ou alguma coisa assim. são três, e estão sempre juntos. e eu sempre os encontro nas horas erradas. por exemplo: quando as horas estão passando devagar. acho uma visita num sábado uma puta de uma covardia, ato de bandidos, ladrões. vocês estão roubando meu tempo, mas não sei por que estou gritando. tá tudo relax. uma coisa compensa a outra e adiciona mais perigo ao tempo. ou alguma coisa assim. coisa. eu gosto da palavra coisa. ela tem um som legal. experimente falar “coisa” alto. sei lá, tussa. é igual a qualquer outro som, gosto dela pra caralho. tanto que classifico meus grandes amigos na pasta chamada coisas.
recapitulando: eu jogo um jogo, e, aliás, o que mais jogaria? sei, estou sendo redundante, mas estava faltando uma interrogação. ela precisa ser feita. e ignorada. a gente precisa ler em voz alta. as lições de casa. só interagindo o mínimo possível com o mundo é possível - possível - interagir o máximo possível com ele, o mundo. conpemsava - compensava - o fato de ter amigos com jokenpo. quem perdia virava uma dose. assim o tempo passava mais rápido e ficávamos vistos como idiotas, o que é uma maneira excelente de não interagir com o mundo exterior que está ao seu redor. eu ficava mais perto da morte. aliás, eu fiquei, aliás, foi ontem. ontem. aqui, uma exclamação:
Sr. você,
quando ler isso, você estará 39 palavras mais morto. ops, 66.
a exclamação do meu teclado, a tecla está quebrada. ando muito menos feliz e também menos incisivo. é preciso usá-la. mas mudo um pouco de conversa: estava falando do hábito de ser vegetariano. você não come carne. já pensou que eu já usei a interrogação. não, não como. por que.
isso é um excelente começo de conversa, ou seja, uma maneira de fazer você morrer mais rápido. durante uma conversa, espero que você já tenha passado por uma, então serei breve e só falarei o necessário: o tempo passa mais rápido, as coisas ficam mais moles, a gente corre mais riscos, sorte mesmo pro azar. ok. eu não consigo mais fazer as contas. não sei como o jogo tá/está. é melhor não arriscar, parar por aqui, curtir o domingo, esperar a segunda, ligar pros amigos, e por um ponto final nessa história, porque a gente tem coisa melhor pra fazer, como ficar mais perto da morte. adorei a conversa, tchau/ciao/xau.