segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Ossos

Na sala de um apartamento no quinto andar de um prédio que fica onde costumava ser a avenida Boa Viagem, um homem admira um espelho. Ainda existem outros espelhos na cidade, mas esse tem três metros de altura e uma moldura dourada. Além disso está, talvez por milagre, imaculado, sem poeira, sem maresia, sem gordura, a não ser por um corte perfeitamente diagonal, de cima abaixo da parte superior direita à esquerda. O que é que ele vê?
Realmente, existem outros espelhos na cidade. No prédio antes ele procurou na farmácia de um banheiro remédios e viu, na penumbra do pequeno espelho empoeirado, sua silhueta, sua sombra, admitiu que era sua sombra, sua silhueta e continuou. Não havia remédio.
Mas esse espelho em particular o deixa tão admirado que é como se durante todos esses meses ele não tivesse procurado apenas latas de comida, antissepticos, álcool, cola, solvente, corda, gás, mas também e principalmente aquele espelho.
Onde está aquela criatura rápida, cheia de reflexos e cheia de uma boa paranóia?
Por que está parada, vulnerável?
Faz sol, ele entra livre pela varanda destruída até metade da sala destruída, onde está o espelho que reflete o reflexo que o sol faz ao bater nas águas do Atlântico.
O que é que ele vê?
O que ele vê no espelho são olhos queimados, manchados, escuros, marrons como o rosto. Olhos cheios de intenção e motivo, cheios de algum motivo horroroso, cheios de uma inteligência dura, brutal, olhos feitos para ver algo como sangue.
Os cabelos são ralos, quase inexistentes, e a impressão geral que passam é que só estão presos à cabeça pelo peso do suor e do sebo.
A testa é enegrecida, seca, rachada e enorme.
A orelha esquerda é só metade. A direita é peludo como a orelha de um velho.
O nariz é infecto, cheio de cravos pretos que parecem querer pular para fora a qualquer momento.
O bigode e a barba estao podres de toda e qualquer imundície que pode sair de um nariz, e não servem nem para esconder a horrível boca rachada e cinza com poucos dentes que não estejam podres, como se servissem, aliás, como uma moldura que, afinal, realça, serve para mostrar a boca pela qual respira mais do que pelo nariz, nariz eternamente entupido pela umidade e pelo pó, boca que respira com uma dificuldade que, à primeira vista e sem saber de suas intenções ou motivos, para qualquer primeira vista mais pareceria uma pilhéria, como se não fosse parte de sua constituição bufar e escarrar.
Em conjunto, em sintonia, todas as partes de seu rosto parecem desejar o mal, como um rosto conformado em ser ruim, um rosto que sabe que existem rostos melhores e rostos piores, e justamente por isso existe, para dar testemunho, ali, frente a frente, o rosto pesado, o rosto espelhado, servindo ambos a seus estranhos desenhos, cheios de conforto para representar o mal, conforto que outros rostos jamais terão para demonstrar justamente o contrário, um rosto finalmente adequado, um rosto justo, um rosto feito de sol, bactérias, suor, de falta de água, de abundância de água, de má alimentação, de solidão, de angústia, de insônia, mas também feito de vontade, de sinceridade. Quem não gostaria de ter um rosto assim?
Metade. Pela primeira vez em meses, percebia algo além de sobreviver - ou subviver, como ele dizia falando sozinho. Pelo menos uma silhueta, uma sombra da verdade, passando rápido, se escondendo tímida; mas não era o caso. Ali ele se via, pela primeira vez em muitos meses. Por completo.
Não somos porra nenhhuma, mas consegui ser metade, na verdade um pouco menos da metade de algo; é realmente um espelho bonito.
E antes eu passava pertencer a alguma coisa, tentava de verdade, fingia até bem, eu acho, que pertencia, mas não enganava ninguém, da mesma maneira que todo mundo. A gente quer apenas ser o outro.
Agora estou só aqui no quarto vermelho, o último quarto seco dessa cidade e não preciso ser ninguém além de mim mesmo. Achava que era inteiro, mas sou metade. Menos da metade.
O último filho da puta, o verdadeiro filho da puta nessa cidade de filhos da puta, uma pessoa que vive numa cidade que não existe.
A cidade não existe mais, a não ser na minha cabela. Mas eu resisto me banhando nessa chuva amarga, morna, escura, nessa chuva eterna que desaba sobre a cidade do Recife, o resto da cidade, um resumo da cidade, um compacto demente, pobre, ignorante, violento, terrível e verdadeiro da cidade, um carnaval total de mil anos, todas as esperanças espremidas até a desidratação contra o véu concreto de muros de mil metros de altura, apenas para escorrerem, reidratadas pela lama que agora cai de todos os cantos para se espalhar, se misturar na merda e nos cadáveres onipresentes da cidade. A cidade agora nunca dorme, nunca mais dormiu. Eu mesmo não durmo, entre gritos, gemidos, ganidos, suspiros, roncos e ranger de dentes, entre alarmes, campainhas, sinos, sirenes, no calor do zinco e do amianto e do pvc e até do mármore, nas grandes estufas verticais onde antes germinavam lobotomizados.
A varanda era o atlântico. Algumas ondas soltavam bolhas no ar, contaminadas pela putrefação dos mortos de Recife, contaminadas pela poluição onipresente de Recife. Bolhas estourando gases que poderia ser dizer que eram como como o cheiro que um feto plástico a saudade solta.
E até isso Recife tirou dele: a saudade.
Agora é só um rosto, que vai virar outro rosto, e depois outro, até morrer de fome ou doença.
Alguns meses depois terá um rosto igual ao meu ou ao seu, debaixo da água, encerrado no enorme mangue, ou uma múmia ajoelhada em frente a um espelho.

Grito

Grito
Criadero de nervios, mala brecha,
por sus cuatro rincones cómo arranca
las diarias aherrojadas extremidades
.
Vallejo, poema XVIII, Trilce
A maneira com que Recife o engoliu de volta o deixou literalmente doente. Desceu do avião já com a cabeça pesada, febril, a garganta arranhando, e só piorou no bafo fedorento da pista do aeroporto. Algumas passistas de frevo cometiam um espetáculo horrível, tentando sorrir, provavelmente sendo forçadas a sorrir no meio da chuva suja que caia quase de todo lado na pista do aeroporto, tendo que aturar, além de tudo, os turistas que tiram fotos, como se diz, até debaixo d’água. Sorriu um pouco com essa idiotice, mas só um pouco. Estava mesmo era com medo.
Medo de voltar pra essa cidade miúda, ingrata, brutal, disfuncional, medo de começar, ainda amanhã mesmo, tudo de novo, tudo de Recife de novo, o Recife por dentro do Recife por dentro do Recife, e assim até o átomo, até o último detalhe. Não se pode ter senão asco por um lugar assim.
Era como um pressentimento, mas também tinha seus motivos muito práticos, que havia tirado ouvindo as conversas nas poltronas ao lado durante o voo: pau e barro matando pessoas por toda cidade; de um lado, um assassino louco na chuva e uma chuva que enlouquecia a todos, os rios, as barreiras. Tragédia, era o que diziam, mas ninguém iria deixar de brincar o Carnaval. Não existia assassino nenhum, e chuva não tem culpa de nada; o que mata gente aqui é a esquina de cada rua. Aos poucos, como a vida.
Se pudesse - e poderia -, teria ficado até morte longe daqui.
Depois de alguns minutos estava dentro de um vagão do metrô, quase sem perceber. O ar-condicionado não funcionava, mas isso não importava muito, desde que o vagão não parasse; o problema era outro, cada um reclamando do calor, e do mormaço, e estavam passando mal, e alguém bateu com força na parede, e alguém quebrou um vidro e no final, mal ouvia a voz sem rosto e sem cor dizer “Estação Recife”, foi vomitado quase tão violentamente quanto fora engolido.
Pipoca salgadidoce chips celular película moça deixou cair obrigado(a?) jujuba três é um real aqui vai querer olha a água gelada com licença com licença com licença e nem pensou, mas de jeito nenhum, em pegar o circular. Estava morrendo.
Morava na rua da Aurora. Iria a pé.
Foram os piores passos da sua vida. Sem guarda-chuva, a água quente o sujava por todos os lados, e ele não tinha forças para correr nem para parar. Chegando ao prédio, subiu as escadas - se negou a usar o elevador com medo de encontrar alguém, e, aliás, talvez demorasse mais – ele mora no segundo andar - e quase no susto chegou na porta do apartamento.
Desde que descera do metrô já estava com as chaves na mão, preparado. Se livrou das roupas assim que entrou no apartamento, quase sem fechar a porta, deixando uma grande poça de tecido e lama no meio da sala.
Foi imediatamente para o banheiro, tirar aquelas mazelas, todo o esgoto, todo o miasma. De nada adiantou. Na cozinha, ainda nu, abriu quase com nojo uma lasanha congelada e jogou com raiva dentro do microondas; havia uma garrafa quase intacta de uísque na porta da geladeira, que ele tinha esquecido aberta.
Enquanto decidia se encarava o uísque com gosto de plástico olhou sem querer para a poça que tinha feito bem na entrada de casa. Se surpreendeu com tanta chuva que trazia consigo.
Ainda está lá, na verdade.
A poça, que agora é barro talhado.
Está lá desde que chegou. Porque ele chegou. Então deixou tudo por lá só de raiva, de má vontade, de arrependimento talvez, ou como lembrança. De vez em quando se sentia assim.
Foi quando o microondas disparou o alarme da lasanha, ele percebeu que já estava na metade da metade da garrafa, que já não estava tão ruim assim.
Ainda pensava que não deveria ter voltado. Se pudesse, ficaria lá. E poderia. Se quisesse, ficaria lá. E queria. O que acontece, no fim das contas, é que mais parecia que nunca tinha nem saído dali.
Não comeu a lasanha, que depois de 15 minutos de eletromagnetismo agora parecia a casca purulenta de uma ferida ruim. Sentou na mesa, terminou a garrafa e acabou dormindo ali mesmo, quase não sentindo o dia que ia, tudo sendo um só momento, a chuva a porta o uísque o sono.
Um grito.
Pensou, ao acordar, que tinha sido apenas a sobra de um sonho. No momento, sem ideia da direção ou da duração do grito, encarou o ocorrido apenas como uma lembrança mal lembrada, a impressão de que o que ouvira, ouvira com outros dois ouvidos, uma alucinação, um curtíssimo pesadelo. Pensou nessas coisas enquanto tentava voltar a dormir, até que ouviu outro grito. Estava definitivamente acordado; ainda chovia.
Como ele contou várias vezes depois, a impressão era que tinham gritado bem ao seu lado, ou melhor, bem à sua frente.
Terminou de acordar na varanda. Os postes jogavam uma luz vermelha por todo o chão lá embaixo. De som, nada parecia existir além da chuva no telhado de zinco da concessionária de veículos vizinha ao prédio. O som era de um leão enorme.
Alguém de alguns andares abaixo, no prédio da frente, apareceu na janela, quase com medo, como ele mesmo, e aí ouviram um outro grito.
Há mais três janelas no apartamento, a do quarto, a do banheiro e a da área de serviço. Na confusão e no medo não conseguiu decidir qual seria a correta, a janela certa, a janela do grito, e foi para a mais próxima, a do banheiro.
Foi correndo até lá, descobrindo que a pequena janela do lado do chuveiro servia para apenas uma coisa: ver que ela estava imunda. O ângulo em que ela abre é inútil para ver a rua. Viu apenas o céu alaranjado de tanta noite e chuva, e ouviu outro grito.
Saiu do banheiro e foi até o quarto. Tinha esquecido a janela aberta, e o quarto era todo água, escorregou no azulejo molhado e caiu, mas não se machucou. Com o coração pulando, se levantou, foi até a janela, mas só viu um carro que passava na rua, rápido, insensível, mal se via mal já estava virando, sem esperança, a esquina. Talvez fugisse. Voltou com cuidado para a sala, escorregando um pouco. A última janela ficava depois da cozinha, na área de serviço.
Atrás do prédio, uma casa abandonada há anos. O terreno é enorme e está tomado pelo mato. As áreas de serviço dos apartamentos ficam viradas para lá, o prédio quase de propósito virou suas costas para a a antiga mansão. O muro era alto, a rua, vazia: o lugar perfeito para uns gritos.
Enquanto se dirigia à última janela os gritos recomeçaram, com mais força e desespero que antes. A cada passo eles estavam mais pertos. Chegou até lá com a determinação de também gritar.
Colocou a cabeça para fora da órbita do prédio, a chuva bateu com força no seu rosto, ouviu apenas mais um grito e não teve coragem de devolver.
Depois nada.
A polícia só chegou uma hora e meia depois. Ele acompanhou da janela o trabalho da polícia junto com outros curiosos do bairro. Era uma mulher, como havia suspeitado. Havia sido espancada e morreu em consequência dos ferimentos que sofreu na cabeça, de uma maneira muito parecida com as outras vítimas.
- Mataram de cano de ferro. Isso foi cano de ferro. Mas com certeza.
Como um cachorro. Como um cachorro com a cabeça aberta.
O sábado amanheceu e ele só conseguiu dormir bebendo.
É mais ou menos isso que dirá para a polícia, se perguntarem a respeito da madrugada. Dirá com menos literatura, mas dirá. Oferecerá pães com manteiga e uns copos com café. Como de costume, não o prenderão.

Obrigado, Recife

Eu tenho um ritual que faço – que besteira que digo! - Quero dizer, tinha um ritual que fazia toda vez que ia à praia, quando ainda existia a praia de Boa Viagem... Eis basicamente o que acontecia: toda semana, nas segundas, eu ia para a praia. Não escolhia lugar nenhum, simplesmente descia aleatoriamente, normalmente onde acabava o capítulo de um livro que estava lendo ou uma música que estava ouvindo, um tipo de brincadeira que, no início, me levava a acreditar que aconteceria algo maravilhoso comigo por acaso; não preciso dizer que nada assim nunca aconteceu, mas eu tenho o espírito da aposta. Era mesmo uma brincadeira, uma brincadeira fácil de brincar e era assim que fazia. Enfim. Eu chegava cedo, essa éra a constante da coisa toda, chegava cedo para pegar um lugar bom na areia, perto da água, mas nem sei por que, porque sempre, nas segundas, era fácil, de manhã cedo, sempre, pegar lugar perto da água, então acho que chegava cedo por causa do sol, algo assim, sei lá. Então eu tomava um coco, comia uma tapioca. Tirava um cochilo. Quando dava dez, dez e meia da manhã, eu acordava, fumava maconha, pedia uma cerveja, duas. Fumava um cigarro. Então eu começava a ler trechos, aleatoriamente, de dois livros, eram sempre os mesmos dois livros, necessariamente Os Frutos da Terra, de André Gidé e O Triunfo da Morte, de Gabriele D’Annunzio. Os dois livros faziam parte da brincadeira, porque na primeira segunda que os levei para a praia - eu sempre levava livros para a praia -, eu tive as primeiras imagens, visões, delírios. E gostei. Então eu lia, por uma hora mais ou menos, os tais trechos e então esperava as imagens, as visões e os delírios voltarem, de olhos fechados, o vermelho do sol pintando as pálpebras. E eles sempre voltavam. Primeiro uma força enorme, uma consciência maior, a aspiração de todas as criaturas, boas ou más. Então eu olhava em volta, e via todas aquelas pessoas no meio do dia, pessoas que eu nem tinha notado há minutos, e me esforçava para perceber que mesmo elas tinham um pouco dessa força enorme. Elas resistiam a tudo ali. Resistiam à embriaguez, ao sol, ao barulho incrível que a praia tem mesmo numa segunda ao meio-dia, resistiam ao caldinho velho, às crianças birrentas, aos ladrões, aos tubarões, à sujeira. Levavam ao máximo suas vidas. Se expunham, por assim dizer, se abriam ao mundo. Tudo que o mundo dava imediatamente recebia retorno. Eram criaturas muito reativas, muito sensíveis. Havia gordura na areia, a areia era gordurosa, suja como se fosse o guardanapo que a cidade toda tivesse acabado de usar. Mas não importava. Que fosse um chiqueiro não importava. Afinal era só mais um chiqueiro no chiqueiro enorme de Recife, e como estavam abertos para tudo, mesmo sem saber, experimentavam tudo, todos os chiqueiros. Quanta inveja! E eu olhava pra frente; via o mar. Então, onda após onda, eu me punho a imaginar uma força maior ainda, um tsunami. Lembrava das Ilhas Canárias. Que sugestão. Um canário. Jung dizia que os pássaros representam espíritos ou anjos, a ajuda sobrenatural, os pensamentos invulgares, ideais. Pois há um vulcão ideal, invulgar, nas Ilhas Canárias, que numa erupção ideal, invulgar – não é apenas possibilidade, mas uma questão de tempo – vai deslocar algo como quinhentos bilhões de metros cúbicos de terra e criar uma onda de dois mil metros de altura. Isso é certo. A única dúvida é: quando? Talvez agora, eu pensava, talvez agora enquanto penso nisso, era o que dizia de mim para mim. Então ficava esperando ver pessoalmente, com meus próprios olhos, aquelas imagens do tsunami de 2005 no pacífico. Ficava esperando o mar recuar violentamente, de repente, sem explicação. Só poderia ser um tsunami, como eu vi na tv. Lembrava que seria uma onda de trinta metros, que eu estava muito distante do Alto José Bonifácio, do Morro da Conceição, do Alto Santa Terezinha, longe da segurança. Lembrava que estava no meio de Boa Viagem e não conhecia ninguém, e mesmo que conhecesse, com minha cara de susto, com minha cara de preto, o porteiro preto assustado não ia me deixar entrar naquele prédio chique ali depois da extinta avenida, e talvez, se me deixasse entrar, eu não pudesse usar o elevador social. Mesmo eu, que leio Gidé e D’Annunzio e Jung. É o tipo de pensamento que, ao contrário do que podem pensar, me tranquilizava. Por muito tempo me perguntei se estava no lugar certo, se Recife era o lugar certo para ficar. E era. Não poderia ter essa imagem, esse desejo, em nenhum outro lugar. Não poderia ser inteiro. Agora estou perdido numa cidade nova, longe do mar, tranquilo, seguro. É uma pena. Deixei de ser um porco e me tornei um carneiro. Um porco em pele de carneiro..
Obrigado, Recife.

Panta Rhei

O que eu pude fazer de mim, em Recife, sem querer e sem saber, foi ser aquele sujeito estranho nos arredores da festa, um voyeur, um stalker nas margens da grande festa cafona, suja, mentirosa e estúpida que era Recife, aquele sujeito estranho cheio de ranço na beirada da grande orgia, que não tinha sido convidado porque não tinha pedido ou comprado o convite, aquela criatura invertebrada cheia de bile, cheia de inveja, que queria ser diferente apenas porque era igual, apenas porque sim, aquele cara que volta cedo demais da porta da festa, que é igual – irmão - ao mesmo que ficou até o fim.
Mas, voltando cedo de uma festa qualquer, eu ia lembrando de um poema, e pensei que ali eu era diferente, não tinha mais ninguém pensando o mesmo que eu, em canto nenhum do mundo, ou pelo menos em canto nenhum de Recife, recitando em voz alta versos que diziam algo de um rio que carregava garrafas vazias, papéis, lenços, bitucas de cigarro ou outro testemunho das noites de verão, algo assim, enquanto que o Capibaribe por onde andava e atravessava carregava até demais dessas coisas, um rio inabitável, intraduzível, intragável, um rio atroz, hostil, que tinha mais que muitos lenços e muitas bitucas, tinha lata, camisinha, cueca, sapato, disco, foto, cartaz, garrafa, lata, lona, merda, um rio que tem todo e qualquer testemunho de que tudo é noite aqui em Recife, que é testemunha de toda a noite no mundo todo, uma noite vazia e enorme, testemunha à uma hora da manhã, uma hora enorme da madrugada, e é sempre verão, para sempre verão, um verão sem sombras - faz sol à uma da manhã, sem descanso, um carnaval ignorante e eterno, um carnaval que convida sempre à ser outro, ou seja, a ser ninguém, a ser igual.
Era esse tipo de coisa que eu pensava, mas agora só posso lembrar que pensava, porque agora o rio não é mais, agora é um rio enorme, no mínimo, ninguém sabe, eu não sei onde começa, onde termina, agora o rio é um lago enorme, agora o rio é o atlântico todo, agora o rio não permite mais pontes, não existe ponte pra tirar Recife da solidão, não existe ponte tão comprida, tão larga. Eu lembro das pontes, quem não lembra?
Pontes, mais um sinal do Recife. Pontífice, o que faz pontes, a ponte entre deuses e homens. A ponte multicor da aliança. É mudança, ou desejo de mudança. Dois estados, antes irremediavelmente separados, por um artifício ligados. No caso, aqui, eram as ilhas:
Boa Vista, Joana Bezerra, Ilha do Leite, Santo Antônio, do Retiro, do Maruín, do Suassuna, do Nogueira, ilhas que foram mudando de nome, trocando de nomes, ilhas deixando de ser ilhas – talvez a parte bonita da cidade - aterradas, sumindo, ilhas só no nome pouco a pouco, pontes derrubadas, pontes inúteis, e agora nem ilha nenhuma mais mais; aliás, agora, milhares, milhões de ilhas, tetos podres dos sobrados, a metade mais alta de alguns prédios, caixas d’água, os morros: Ilha da Conceição. Ilha de Santa Terezinha. Mas jamais e além nenhuma ponte. Ponte, desejo de mudança.
De cima de uma ponte muitos dias lembrei de Heráclito. Panta rhei. Um dia, não sei porque, lembrei também de Galileu, lembrei “eppur si muove”. Mudança, desejo de mudança.
Desejo inútil, porque aqui em Recife a maldição era o destino já traçado para a negação da mudança, para muitos. Mal saiamos alguns metros de lá, já estávamos voltando, achando que deixávamos de ser algo, achando que deixávamos para trás, deixando de estar recifenses. Perdidos em nossos destinos de recifenses, de apenas desejar, desejar mudança, mas ir pro brega pasteurizado procurar moça bonita, ouvir cover, amar Chico Science. Uma mudança oca, disfuncional, que eu não queria.
Todo mundo deseja mudança, qualquer mudança, mas eu não.
Um dia, por exemplo, embaixo de uma ponte uma moça deixou de estar viva para estar morta, deixou de cheirar cola para cheirar a defunto, a carne podre.
Por mais de três dias andamos sobre a ponte de ferro, miríades, como se só existisse uma ponte na cidade, andamos no calor, no mormaço, no suor, nos vapores, no bafo do mangue. Compramos rádios de pilha, folhetos de cordel, chocolate vencido, iogurte vencido, garrafas de água, cds pirata, pipoca salgada ou doce, bijouterias, celulares e correntes e relógios, roubados e não roubados, brinquedos de madeira, brinquedos de lata, brinquedos de plástico, nego-bom, japonês, cocada, caldo de cana, broa, cachorro quente, espetinho de carne, churros, batata frita, uma multidão de cores, cheiros e sons nauseabundos. Caiu um alfinete, Acho que foi um tiro, Estalo seco assim é tiro, Seco assim é tiro, Mas não, Que nada, Tá cedo demais pra um tiro.
A criança ainda não tem três anos e já apanha como o animal que é.
O velho usa o facão num coco, mordendo os beiços, como se cortasse uma cabeça com gosto, é a mesma faca na imaginação de todos, o mesmo movimento de cortar cabeças.
Palavras asquerosas, intenções piores, sorrisos. Gritos de todo tipo, de ódio, de prazer. Música de todo tipo, do frevo à sacra. Uma moça fuma pendurada no parapeito da ponte, fala alto no celular; é bonita, mas não meu tipo. Um motor a diesel faz fumaça, o motor que faz caldo de cana, defumam a igreja, defumam a barraca de incenso e o terreiro, sinos tocam, queimam pneus, queimam lixo, assam carcaças, o sol começa a esquentar o esgoto a céu aberto, todo cheiro se junta para formar o cheiro de canavial e esterco queimado, cheiro de estrada numa queimada de esterco, um cheiro horrível que nunca esqueci, voltando mais moço de Alagoas, cheiro de desespero, cheiro de ignorância, cheiro de medo, o cheiro específico em nenhum outro lugar achado: Recife tem um miasma particular.
Assim passamos três dias, mergulhados como ovos podres na conserva, mergulhados no cheiro do Recife, achando que aquele cheiro estranho, porém doce, de cinquenta quilos de carne morta fazia parte do cheiro do Recife. Só depois de três dias, três dias depois a gente decidiu que fedia demais até pra gente, e então descemos e encontramos e vimos que era mesmo parte do Recife, uma parte desfigurada, sem nome, violentada, uma pedra enorme no lugar de uma cabeça, uma parte morta, inchada, escura, feia, mas uma parte de Recife, uma parte tão boa quanto qualquer outra, tão parte da gente que a gente nem percebe até que cheira mal demais.

Punhalada

Eu sempre pensei que as coisas não podiam ficar tão ruins. Algumas pessoas sabem como estou mal, mas finjo - acredito - finjo bem para o resto. Mas no fim das contas o que acontecia era que eu estava na merda mesmo naquela semana. Morava de favor num quartinho de empregada num apartamento sem luz, sem telefone, sem água. Eu tinha acabado de levar um chute na bunda, aliás, dois chutes na bunda, o primeiro do emprego, o segundo da namorada que não queria namorar um desempregado. Para mim, sempre foi tudo ou nada. Então, sim, eu senti dor, muita dor, da mesma maneira que agora, nesse momento, sinto prazer, alegria, felicidade. Estou vivo, afinal. Não é isso que todos queremos?
Mas eu estava agonizando, eu sentia dor, uma dor insuportável, uma dor de raiva insensata, sem alvo, sem objeto. Não comia, não bebia, até porque eu estava sem nada mesmo, não tinha recebido ainda a rescisão nem auxílio desemprego nem porra nenhuma, e nunca tive poupança. Eu só ficava ali, em cima daquele colchão, suando, fedendo, piorando, nu. E uma hora eu precisei ligar pra ela, eu não aguentava mais, e eu não tinha nenhum mesmo a não ser pra comer um pão torrado e um pingado mais tarde, mas foda-se, ela atenderia, mesmo a cobrar ela atenderia, fui no orelhão e liguei, ela atendeu quase que imediatamente, o que deixou meu coração e respiração muito rápidos, como se eu estivesse ali contra minha vontade, a perigo, e eu fiquei com um medo danado de não saber o que dizer ou saber o que dizer mas que não fosse a coisa certa a dizer, ou qualquer ambiguidade, qualquer banalidade - muito provável -, então aquela musiquinha da ligação a cobrar tocou até o fim e quando ela atendeu e soube que era eu começou a falar alto, bem alto, não estava gritando mas falava muito alto que era pra eu tomar vergonha na cara e não ligar a cobrar pra casa dela, que quando ela atende uma ligação a cobrar só imagina que é muito importante, que alguém se acidentou, que alguém morreu, e desligou na minha cara, sem que ela pudesse ouvir que eu a amava, amava muito, amava de verdade.
Eu a amava tanto que por um ou dois segundos pensei até em não comer meu pão torrado e beber meu pingado mais tarde e alugar um cartão telefônico ali na banca da esquina, só pra ligar pra ela e pedir desculpas, primeiro pedir desculpas, depois dizer que a amava, amava muito, amava de verdade, então iríamos conversar até o cartão acabar, que fosse suficiente, mas a cidade do Recife não me deixou ser tão otário, porque no caminho da banca ali na esquina tem um beco e no beco tem um bar e no bar tem uma garrafa de cana e dentro da cana tem poesia e dentro da poesia uns poetas bêbados cagados, fedendo como eu, piorando como eu.
E eu sabia, intuía, que quando tudo passasse, aqueles versos e risadas, a bebedeira ora eufórica, ora baixo astral, aquela fraternidade improvisada, bruta, às vezes cruel, mas sempre sincera, o pior não seria a ressaca, a inevitável ressaca de um poeta, mas ter a certeza de que amanhã acordaria me lembrando dela, como em qualquer outro dia. Fui dormir com esse medo muito específico e acordei tremendo, de madrugada, tremendo de febre e de fome no mesmo colchão suado, fedido, pior, nu. Mas não me sentia exatamente mal.
No fim das contas, agora com mais distância, agora sem Recife, quando tudo isso passar, talvez eu veja que na verdade eu não sentia era nada. Não sentia porra nenhuma a não ser aquele tédio que qualquer pessoa medíocre sente, frustração, um pouco de raiva, mas, acima de tudo, tédio. Um tédio cheio de ranço. Um tédio azedo, cru. Afinal de contas, que porra eu esperava que fosse acontecer? Felicidade? No fim, era apenas isso: tédio. Eu não me sentia mal. Estava piorando, sim, mas para melhor. Como quando a gente se acovarda, por exemplo, e porque nos acovardamos, sobrevivemos. Em qualquer toca, em qualquer moita, em qualquer buraco no chão. A gente chora, implora, se submete. O piorar da humilhação me melhorava, era o que pensava bêbado, recém-sonhado, na cama suada, piorando, fedendo, com bafo de cachaça. Acontece que a maioria acha que melhora, mas melhora pra pior, como quando aquela pessoa que gostamos tanto fica careta, um pouco fascista, e dói, mas o resultado é que ficamos mais vivos, aceitamos - o que muitas vezes, não tiro a razão, é melhor do que estar morto.
Já chovia quando acordei. Eu lembro, as chuvas começaram naquele tempo. Chovia pra caralho e eu não tinha ideia de que horas eram. Podia ser qualquer coisa entre dez da noite e quatro da manhã. O que eu sabia é que eu ainda estava meio bêbado, porque eu desci as escadas do jeito que estava, nu, parei na porta do beco. Ninguém. Tomei banho ali mesmo, banho de chuva, sabão amarelo, um banho demorado, realmente demorado, o melhor banho que já tomei, aliás, o único banho que jamais tomei. Fiz minhas malas quando voltei pro quarto e esperei na varanda, penteado, a barba feita, esperei o dia amanhecer, esperando com a melhor camisa que tinha. Demorou. Era mais cedo do que eu pensava, ou era a ansiedade? Fumei quase duas carteiras de cigarro, mas estranhamente me sentia tranquilo. Era mesmo mais cedo do que eu pensava. E porque era cedo pensei muito.
No dia seguinte todo meu dinheiro saiu e eu fui pra esse hotelzinho que era do lado, onde permaneci até então, né, até acontecer, até...
Era um quarto asqueroso, que nem mesmo eu aguentava. Mas era um quarto e era barato. Ficava praticamente no meio do Mercado de São José. E logo abaixo da minha varanda, um amolador tinha se instalado há muito tempo. Depois da primeira hora de alicates, tesouras e facas, soube dos motivos de ser um quarto tão barato, mesmo com aquele aspecto abandonado e úmido, que aliás combinava com tudo.
Não adiantava fechar as janelas. Uma delas não tinha nenhuma porta, a outra, apenas metade. Os quadros de vidro pintados de vermelho velho apenas pioravam a situação. Era um quarto vermelho e barulhento durante o dia, um quarto preto e silencioso durante a noite.
De dia, evitava olhar diretamente para a janela, inutilmente: o vermelho velho estava no teto, nas paredes, até debaixo da cama. Mas era o negócio da china, naquele momento, antes de tudo. Pindaíba, uma crise de meia-idade, a história que todo mundo conhece. Chega um momento, se isso se desenvolve, que simplesmente tanto faz. Um vermelho velho coalhado, o som da pedra na lâmina. Assim passava meus dias, fumando, piorando, nu.
Tanto fazia morar num quarto vermelho com som de faca amolada.
Eu fui feliz naquele quarto; também exagero, confesso, no pessimismo. Durante quatro dias fui feliz. Festa, gente, baixos, altos. Estava vivo, uma vida nova, dinâmica, o clichê era verdade.
O tempo sana, a natureza sana. E consegui me resignar, a natureza do quarto e do som ambiente me sanava, senti desde o primeiro dia. Me melhorou para pior.
Não tinha mais despertador. Exatamente às 7 da manhã lá já estava a roda improvisada de bicicleta, a pedra e o metal, fazendo seu barulho característico. Horrível. Incontornável. Nosso.
Às vezes ele amolava facas. A maioria da clientela era de mulheres com tesouras e alicates. Mas as vezes amolavam facas também, homens e mulheres.
Então eu me punha, porque simplesmente não conseguia me concentrar em outras coisas, a olhar atentamente as faíscas e a ouvir o som. Não é o mesmo da tesoura, por exemplo, que o de uma faca. As faíscas das tesouras são fracas, abortos. Não duram. As facas não. Elas resistem e choram uma chuva laranja impossível de não apenas ouvir e ver, mas relembrar com clareza, com alguma gratidão até, mesmo nos momentos mais inesperados.
Eu aprendi a amolar facas. Eu já era bom nisso antes de ficar naquele quarto.
Não era para ser daquele jeito que o amolador fazia. É necessário uma pedra com dois lados, um mais forte, outro mais fraco; um pra afiar, outro para dar o acabamento. É sempre necessário também resfriar tanto a faca como a pedra com água. Uma faca nova, que por qualquer motivo ficou cega, deve ser afiada sempre com a parte mais suave. A parte mais abrasiva, na minha opinão, era para facas velhas, realmente desgastadas, numa emergência apenas. Afiar uma faca de outra maneira é simplesmente estragar a faca.
Foi a única coisa que me fez mal de verdade: eram poucas as facas que traziam até ele, mas eu sempre lembrava de Borges quando as via indo embora, sem querer ser pedante, apenas pela imagem, pela impressão:
"Às vezes me dá pena. Tanta dureza, tanta fé, tão serena ou inocente soberba, e os anos passam, inúteis".
Eu via as facas indo. Estavam sempre tristes. Inúteis. Inválidas.
Um dia eu pensei: ele já amolou muito mais facas que eu. Ele sabe o que está fazendo. Ele quer que os clientes voltem. Se ele fizer da maneira certa, eles demoram mais a voltar, o que significa menos dinheiro. Assim é a vida e a morte. É natural que ele faça da maneira errada, o que no fim das contas é a maneira certa.
Eu tinha uma faca, dobrável, serrada, de sobrevivência. Comprei um dia por impulso, porque a achei realmente bonita. Era escura, de um aço fosco, cinza escuro. Não tinha marcas ou desenhos. Quando eu a abria e olhava a lâmina era como se fosse um bisturi. Cortaria qualquer coisa. Confiava nela. Dormia com ela no lado da cama, perto da minha mão direita - eu não me movo durante o sono, e alguns dias ao acordar estava prendendo a faca com tanta força na minha mão que ambas estavam dormentes, a mão, com certeza, a faca, pela minha covardia, a faca dormindo sabendo que não seria usada.
Às vezes eu brincava com ela. Cortava coisas, fiz um alvo na porta, até apontava lápis. Era uma excelente faca, de aço muito bom, até onde me disseram.
"Foi feita para durar".
"Excelente durabilidade"
"Corta qualquer coisa"
Um dia eu voltei de uma festa às oito da manhã. E lá estava o amolador de facas, o quarto vermelho suado, fedido, piorado, nu. Mas lá estava a faca, deitada na cama, preguiçosa, linda. Fiel. Ela me amava.
Contei o dinheiro no bolso. Doze contos.
Desci a escada muito devagar, abrindo e fechando a faca que nunca usei de verdade, conversando uma conversa estranha, apenas nossa. E ela só dizia o que era certo. Da minha parte, estava perdido. Era um mentiroso, um covarde, com uma faca na mão.
- Bom dia, mestre.
- Bom dia!
Ele parecia uma pessoa realmente bacana. Talvez em outras circunstâncias fôssemos amigos. Seu tom de voz, seu sorriso, a tranquilidade do dinheiro certo; que pode até faltar dinheiro, mas não falta tesoura nem faca em canto algum do mundo.
- Vim amolar essa faca. Quanto é?
Ele brincou um pouco com a faca, quase da mesma maneira que eu fazia. Depois de alguma palhaçada, ele olhou muito sério para mim. Então eu tive certeza. Ele amolava errado de propósito. Ele conhecia aquele tipo de faca.
- Hoje, pra você, é de graça.
Então ele se pôs a estragar minha faca, minha única faca. Vi a faca que eu amava tanto ficando a cada momento mais inválida, mais fraca. Vi bem de perto seu choro laranja. Vi como resistiam as faíscas ao tocar a lama. Dei adeus.
Quando ele terminou, entregou a faca aberta nas minhas mãos. Foi nesse momento que comecei a acreditar em algo como destino.
- Essa faca agora é fraca, nada mais vale, não tem mais volta, eu disse. Ela tem apenas um único e último propósito.
Enfiei a faca com força no meio do seu peito. Eu o segurei quando começou a cair encostado na parede do prédio, bem embaixo da janela vermelha. Não vi sangue. Tive pena, mas por pouco tempo. Ele não sentia medo. Olhava para mim como se eu não fosse um estranho, mas como reencontrasse um velho amigo há muito tempo não visto. O último suspiro foi o mais forte, longo e sonoro. É o que mais me lembro.
No mesmo dia, liguei da delegacia para minha ex. Não foi a cobrar. Disse-lhe que matei um homem.
- Sim, e daí?, como se não acreditasse.
Eu sabia a resposta, mas esperei um tempo procurando as palavras mais acertadas. Demorei tanto tempo que ela disse:
- Tá me ouvindo?
Então eu disse:
- Matei um homem. De verdade. Quase como você me matou. Agora somos iguais, exceto o planejamento e o método.
Ela me visitava todo sábado na cadeia. Trazia, comida, pó e revista pornô. A gente quase não se falava. Ficava pensando: se ela morasse mais longe, viria tanto me visitar? Talvez não. Mas aqui é alto, e ela arrumou um lugar com a tia. Éramos praticamente vizinhos.
Apesar de tudo estamos presos. Mesmo depois de tudo que aconteceu. Não sei quem morreu, quem viveu. Cocaína e pornografia e alguns minutos de olhares. Talvez apenas isso, durante 15 anos. Eu ficaria satisfeito.
Mas quando a chuva piorou, ela não veio; quando eu finalmente tinha algo para falar para ela: que eu a amava, amava muito, amava de verdade.
Então passava os dias na minha cela, esperando o sábado. Hoje é terça. Hoje é quinta. No sábado, o diretor me chamou. Eu não quis ir. Olhei pra cara do Zezé, o chaveiro. Ele não estava legal. Eu já sabia, mas fui mesmo assim, meio pra não ficar vendo aquela cara vermelha, os olhos que nunca piscam, a testa que fala sozinha.
Fulana morreu, queda de barreira, bombeiros, três horas, sem respirar, morte cerebral, doação etc.
Chovia e ninguém estava no pátio. Pedi para dar uma volta, o que me concederam, uma verdadeira regalia. A chuva caia e eu tirava a roupa, tentando sentir, mesmo sem o sabão amarelo, o mesmo abraço que ela me dava, que elas me davam, um abraço de chuva, chuva forte, impossível de não molhar.

Gangrena

"When I face the beauty of nature, I am no longer sensitive to art, but in the town I appreciate its myriad benefits—the more I go into the woods and the fields the more distrustful I become of art and wish all civilization to the devil; the more I wander about amidst filth and sweat the better I understand art and love it; the desire for it becomes my crying need."
Henri Gaudier-Brzeska

Em alguns maus dias, ao me encontrar parado, a contragosto, em algum canto desse charco, como num ponto de ônibus ou em qualquer fila, tinha a certeza de que estava, literalmente, no inferno, e que estava ali há nada menos que uma eternidade, parado; sabia, então, que minha memória era completamente ilusória, que meu senso de futuro, meus motivos, meus planos eram ainda mais ilusão. Alguns instantes de pesadelo, dos quais não demorava a acordar. Não poucas vezes, ao acordar desses pequenos pesadelos, assaltava-me uma sensação em tudo peculiar, particular desses momentos, a certeza de que algo essencial tinha acabado de escapar por entre meus dedos, por um detalhe ridículo, menor, por causa da falta daquela insignificância anônima eu tinha deixado de ver, finalmente, depois de tantos anos de espera ou procura, a verdade, olhos nos olhos.
Ainda assim, uma impressão continuava. Não tinha mais certeza, mas tinha fé que, nesses maus dias, estava no inferno. Era assim, quando qualquer menor pedaço do Recife se transformava num vasto e atroz panorama, quando percebia uma distância entre mim e todo o resto, quando sentia o estranhamento de me reconhecer como meu próprio demônio, um diabo pobre que escolheu Recife para habitar, para se infernizar.
Era nisso em que eu pensava dentro do táxi parado na Agamenon alagada. Meu pé quase não doía mais, apenas latejava. Estava assim de novo, distante. Imaginava que quase não era meu pé, era algo como um bicho, um cão. Um pé estranho que gania. Talvez apenas distração, porque há trinta minutos eu não conseguia parar de me sentir a pessoas mais estúpida do mundo. Que tipo de gente tira o sapato pra atravessar uma rua alagada? Você, claro, não vê onde pisa, e aí pode sentir um corte fundo. Se parece muito como levar um choque, o primeiro contato com algo realmente cortante. Não sei o que era: uma lata, um caco de vidro, uma Mach 3, machado, uma ghilhotina, uma faca. Uma armadilha aleatória, escondida embaixo da lama e do esgoto.
Um talho horrível, largo, que abriu o meu pé direito como se o pé fosse uma linguiça quente numa frigideira. O sangue se espalhou, e eu pensei, já dentro do táxi, que era mesmo uma imagem horrorosa, o sangue muito vivo, vermelho, muito vermelho, boiando na lama, naquele barro sujo, como se fossem água e gordura, mas havia uma sensação de que não era tão diferente um e outro. Aliás, que tipo de monstro dali brotaria, se fosse possível? Que tipo de coisa poderia nascer de uma mistura assim?
Eu tenho medo do meu próprio sangue. De verdade. Tomo vacinas, mas há anos não faço exame de sangue. Uma vez eu cortei meu indicador esquerdo tentando abrir uma garrafa. Eu sabia o que fazer: limpar o local do corte, pressionar. Pra mim eu achava legal também colocar água corrente ou gelada. Eu gosto mais de colocar meus cortes na água da torneira do que no balde de gelo. E eu sei que é melhor com o balde de gelo, mas na torneira eu não era obrigado a ver a água ficando cada vez mais vermelha, eu ali me diluindo por conta de uma estupidez. E eu odeio meu sangue.
Uma vez, quando morava na Encruzilhada, eu testemunhei uma execução.
Na esquina direita, no sentido olinda da João de Barros, eu tinha ido comprar verduras. E o melhor lugar, na época, para comprar frutas e verduras era bem ali na Encruzilhada, não lembro bem o nome da loja e, aliás, ela não durou muito tempo. O negócio na época era vender carne. Durou uns dois anos apenas. Fechou e agora é uma ótica.
Eu estava contando o troco, depois de comprar todo tipo de verdura e fruta que tinha ali. E ouvi o primeiro tiro. Foram sete. Eu contei várias vezes na minha cabeça aquele instrumento que em nada diferia de um metrômo com más intenções. Mas a imagem ficou de tal maneira impregnada em mim que às vezes me sinto mal com o número sete.
Disse essa e todo outro tipo de mentira para vocês.
A verdade é que não senti muita coisa. Era um motoqueiro com um garupa, o que afetivou os tiros. Não conheço nada de armas, mas eu acho que era uma pistola. Uma pistola é mais forte que um revólver, não é assim? Sei lá.
O troco estava certo. Olhei em volta, o caixa, a fila, as pessoas na janela do ônibus que tinham escapado de uma bala perdida. E olhei os dois na moto virando à direita na Avenida Norte. O sinal estava vermelho. Só então eu vi a farda. Era um bombeiro. E de seu capacete, também vermelho, caia uma cascata impossível de sangue. Devo ter sentido algo, ou talvez eu estivesse em choque, mas simplesmente terminei de conferir o troco e levei frutas e verduras para casa, sem olhar para trás.
Era o sangue de outra pessoa. Uma pessoa sem esperança, agonizando, morrendo. Não havia nada a fazer além do que todo o resto do mundo fez, encarar o horror, sentir alguma satisfação na cena violenta, criar ou contar histórias, boas e más, sobre o moribundo, tentar socorrê-lo com ou sem sinceridade.
Mas era outro sangue. Comigo era o meu sangue.
Ah! j’en ai trop pris: — Mais, cher Satan, je vous en conjure, une prunelle moins irritée! et en attendant les quelques petites lâchetés en retard, vous qui aimez dans l’écrivain l’absence des facultés descriptives ou instructives, je vous détache ces quelques hideux feuillets de mon carnet de damné.”
Fiquei nauseado; tive vertigens. Eu não sei, não lembro como cheguei em casa, mas fui direto lavar meu pé, que ainda sangrava muito. Era um corte muito ruim, comprido, tomava quase toda a lateral do pé direito, da base do dedinho até o calcanhar. Lavei da melhor maneira que pude e consegui estancar o sangue com uma toalha. Sentado na privada eu percebi que não sentia fome, mas lembrei tinha uma garrafa de uísque na geladeira.
Terminei o dia no sofá, bêbado e ferido. Quando acordei de madrugada, um pouco mais quebrado de dormir no sofá, já chovia, e o pé estava inchado, vermelho, dolorido. Talvez esse frio seja febre. Deveria ter ido ao hospital, ao invés de vir para casa. Chamei um táxi e enquanto esperava me arrumei como pude, paralisado pela preocupação com o pé. Fiz um curativo tão feio que parecia mais destinado a piorar a situação, mas era o que eu tinha e eu sempre me resignei muito bem. O táxi chegou e eu entrei. Eram umas sete da manhã.
Que burrice, deixar uma ferida besta dessas infeccionar. Talvez se eu quisesse mesmo que o pé ficasse podre, não teria encontrado uma maneira tão boa de fazê-lo. Nem se quisesse.
Mas Acho que o Recife me preparou para isso.
O bairro do Espinheiro me preparou para isso. Agora a gente sabe que o bairro mais sincero do Recife era o Espinheiro. O Espinheiro era a cara e a alma da cidade. Não era São José ou o bairro do Recife, nem Boa Viagem, nem Casa Forte. Era o Espinheiro. Primeiro porque era um bairro extremamente pequeno. Pequeno e cheio de criaturas ocas.
Pequeno, ambicioso, mesquinho, desonesto. Pegava de uma dúzia de bairros fronteiriços sempre uns metros a mais. Santo Amaro, Boa Vista, Graças, Rosarinho, Encruzilhada, Torreão. As famílias decadentes, incestuosas, brancas. O almoço de domingo. É preciso manter a dignidade a qualquer preço, diziam assim mesmo, sem perceber o pecado, sem intenção irônica. Ser preconceituoso, mas não muito. Nunca lavar a louça. Ser um pouco cego, moralmente flexível. Empregadas domésticas, sim, mas trombadinha e cheira-cola só da Encruzilhada para lá, aqui não tem disso, não, aqui tem gente boa, de família. Cidadão de bem. Era o que todo mundo se dizia, mas eu acho que não dormiam bem à noite.
Você vê, ali onde era a esquina da Quarenta e Oito com a rua do Espinheiro, não tem um prédio marrom claro? Bege? Lá um dia colocaram uma placa, cobrando do prefeito a solução pros alagamentos constantes daquela esquina. Ainda assim uma moça, um dia, moradora do mesmo prédio, resumiu tudo muito bem: moradora daquele prédio, ela me confessou, sim, confessou, com um culpa tão sincera quanto hilária, que no Espinheiro nenhuma rua inundava. Quando eu tive que dizer para ela que ela estava completamente enganada, ela resistiu com tanta convicção que por uns instantes eu pensei que quem estava enganado era eu. Eu não insisti e nunca mais a vi, mas não duvido que até hoje o bairro dela ainda não inunde. Mesmo depois do que aconteceu. Talvez, talvez ela ainda more lá, e esteja esperando a empregada chegar para descongelar a lasanha. Isso tudo, e esse pessoal só precisava andar cem metros para qualquer lado para encontrar uma favela, um córrego, um canal. Apenas cem metros, e descobririam Recife. Precisavam apenas sair num dia de chuva.
Na chuva, Recife sai do armário.
É o que eu digo: a geografia daquele bairro me salvou. Me disse umas verdades. Por exemplo: a chuva em Recife é a instituição mais democrática que existe. Não importa quanto você tenha, você vai se foder. Claro, pobre se fodia o dobro, mas minha rua, por exemplo, ficava intransitável. Não era perder móvel, perder cachorro, perder a casa, perder a vida. Mas ninguém andava. E também não precisava de nenhuma tempestade não, nem de explodir barragem nenhuma, qualquer chuvinha bastava. Qualquer chuviscar e a rua fica cheia da merda daquelas velhas brancas. E então eu via da janela do meu quarto aquele povo tão católico perder a hora da missa. Não podia arriscar, aquele pessoal tão religioso, não podia arriscar pegar leptospirose, ou tétano, ou vermes, nem para salvar a própria alma. Eu ria de suas pequenas desgraças, e quando a chuva passava eu ainda mantinha um pouco de revolução em mim. E eu perseguia, com um pouquinho de querer poder, as pessoas desesperadas naquelas ruas recém-inundadas, elameadas. Era isso que eu gozava. Eu perseguia seu tédio, sua ignorância, seus preconceitos de fila do supermercado. Eu os olhava e estavam nus, porque eu sabia que aquela lama, aquele lodo nos sapatos de veludo é a mesma lama e o mesmo lodo que afogaram e mataram Zefa ou Ciça ou Carminha na Linha do Tiro ou na Campina do Barreto. Exatamente o mesmo tipo de lama. Olhava-os bem nos olhos e deixava que soubessem que eu sabia. Deixava que soubessem que eu sabia que também chafurdavam na lama, embora negassem, até com alguma sinceridade - não duvido disso -, que o Espinheiro tenha algum, apenas um ponto de alagamento. Apenas isso. Funcionou durante um tempo. A chuva me fez sobreviver àquele bairro da mesma maneira que me ajudou a sobreviver em Recife. É isso que acontece. A chuva faz Recife sair do armário.
Quando chove não é apenas um problema por vez, como primeiro o calor, depois o trânsito, depois a gente mal-educada, depois o preço desonesto, ou a música ruim. É tudo de uma vez. É a minha convicção de que todo infeliz que mora nessa cidade deveria pensar de vez em quando: quando chove, Recife rasteja desde seus menores buracos até nós e de repente cai sobre nós, completa e nua, como uma mulher de más intenções. E não podemos suportar olhar para ela. Mas, sem a chuva, é como se todo esse povo estivesse traumatizado. Fingem que vivem em algum grande centro do mundo, usam grandes palavras, grandes marcas, bebem grandes vinhos, andam em grandes carros, fazem grandes compras, acham que tem grandes empregos.
- É a única coisa que o Espinheiro faz: alaga, eu disse, com algum enfado. - Praticamente todas as ruas tem um ou dois pontos de alagamento, isso quando não ficam alagadas de cabo a rabo!
- Pois eu moro há cinco anos no Espinheiro, meu querido, e nunca vi nenhuma rua alagada.
Meu querido.
Também sentia medo do hospital, não gosto de hospital. Não gosto de hospital, de escola ou de delegacia. Aguento até igreja, como aguento o terreiro, mas hospital não. Eu estava muito puto, e o taxista não parava de falar. Foi aí que eu percebi que o Recife não me salvou porra nenhuma. Só me ensinou preconceito e resignação cínica. Chovia muito, eu me lembro, e a Agamenon, na altura da Restauração, estava inundada. O canal transbordou. O taxista começou a falar que estava com medo que entrasse água no táxi, porque o táxi era novinho e começou a resmungar coisa como se não devia mesmo ter recusado a corrida, porque bem que lhe tinham avisado, a Agamenon tá cheia d’água, rapaz, mas como se ele não soubesse que estava tão ruim aceitou mesmo assim. E então estava tudo parado e começou de novo, com o mesmo zumbido de sempre. A certeza. Ali estava, eu via o véu. Era pastoso. Então mais uma vez tive a certeza: eu estava no inferno. E isso me libertou, não Recife. Eu sabia que estava no inferno, isto é, sabia que tinha morrido. Trinta e cinco anos de Recife mata qualquer alma. E a minha estava perdida. Eu literalmente tinha a certeza que estava no inferno. Então paguei, rindo, como se fosse mesmo uma piada, paguei a viagem e desci. Fui andando até o Português, o hospital. Tirei a blusa e a camisa. Tirei os sapatos. Não sentia nada a não ser um pouco de frio. Eu podia tudo. Claro, o pé incomodava, e era só por isso que eu ia até o hospital. Queria um pé novo, para aproveitar tudo com tudo. Cheguei rindo ao hospital. E então senti um pouco de medo, aquela coisa toda branca, o ar-condicionado, o cheiro de álcool, de éter. Senti medo de que não estivesse, finalmente, no inferno. Mas eu só fazia esperar, parado no charco, uma pulseira amarela no braço, me lembrando que era tudo uma piada.
Finalmente me chamaram. Não doeu quando limparam, muito pelo contrário, eu senti um prazer, como às vezes sinto quando me coço, um comichão bom, rasparam tudo, lavaram com água, com aroeira, com babosa, sei lá, depois cobriram com uma malha fina e fiquei um dia inteiro deitado, pensando no que significa ser uma coisa bruta. Brutal. Estado bruto. Brutalidade. Ser uma pedra. Sem conhecer, sem saber, sem olhar. Permanecer ao invés de sobreviver. Pensei também como é bonito um homem como eu, bem acabado, fruto da civilização, educado talvez até demais, pasteurizado, uniforme, asseado.
E quanto vale ser uma coisa e outra, ser bruto ou ser asseado. A diferença que faz um livro ou um pente ou ter mãos de assassino, pés prontos para pisar. E que tipo de criatura que se adaptaria melhor a Recife. Adaptar-se. Nunca fui uma criatura flexível. Sempre fui uma criatura bruta. Do alto de toda minha civilidade, educação, boa-vontade, sempre se escondeu uma certa potência para a brutalidade. Isso não está certo na época que vivemos. Querem que você se envergue e não parta. Antes pelo menos aceitavam que você se submetesse; agora, tiraram até isto de você. Não chore, não sinta raiva, não odeie, não ame demais. Não admita, não se confesse.
Mas agora estou livre.
Estou mal, bastante mal, mas estou livre. Uma faca incógnita rasgou meu pé, mas estou livre. Assim eu pensava. Uma faca anônima furou meu pé direito, furou até os ossos, separou os nervos, os tendões, mas estou livre. Uma faca rasgou meu pé e eu tenho febre, me cortaram mais um pouco, depois me costuraram, me deram comprimidos, injeções, conselhos, tudo isso a cru, mas estou livre. Do que estou livre?
Agora, todos os dias são maus dias. No inferno, aqui, a gente vive e sobrevive de restos. Restos bastam. Não só restos de comida, mas restos de afeto, de memória, de dentes, de vida, de livros, todos os dias estou no inferno, como os restos. E não é tão ruim. Pelo menos ainda tenho os dois pés.

Frevo

Então o Senhor disse a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao Senhor, e disse: De rodear a terra, e passear por ela.
Jó 1:7
O Beberibe cheio de chuva trazia um boi morto e inchado, duro, tão morto e inchado e tão bem trazido que de longe quem o via boiando na lama podia até imaginar que era um balão em formato de boi morto e inchado, pelo menos foi essa a impressão que eu tive, enquanto me coçava todo, na janela da tapera, por causa das horas de muriçoca. O barraco finalmente fedia, rangia no vento, as goteiras estavam por todos os lados, o barro começava a invadir o que quase não se podia mais chamar de chão. Estava nu, sem carteira, celular, mochila. Ela também não estava lá. Ao lado do colchão, no chão, o salto alto, vermelho, o vestido branco de Bianca com várias manchas de vinho, com uma mais mancha mais recente, de batom, em formato de lábios, onde embaixo se via um "obrigado" escrito com mesmo batom. O certo é "obrigada", porra. Mas o burro aqui sou eu. Amor. Amor distante. Distante, mas sempre presente. Amor de repente. O amor gritando numa mata escura, o amor com sede comendo formigas. O amor fugindo da enchente, subindo o morro, se arranhando. Puta merda, vou vomitar. Tou com sede. Ela só não levou uma garrafa de vinho. Foda-se. Tou vivo. Estiquei a mão para a garrafa, e só aí vi que pintaram minhas unhas com um vermelho brega, as unhas dos pés também. Puxei uma mecha do meu cabelo, que ainda era grande. Oxigenado. Loiro.
Que noite.
Da mesma forma que o boi, eu tinha sido arrastado até ali pela chuva de Recife, quase da mesma forma, quase literalmente. A pior parte era que eu lembrava de tudo.
A primeira coisa que fiz realmente em Recife foi tomar chopp no aeroporto. Queria urgentemente me embriagar. O hotel já estava certo, tudo pago, só queria brincar o Carnaval. Mas ninguém parecia que tinha o meu humor. Pareciam realmente todos assustados, todos correndo. Sirenes, enfermeiros, policiais. Uma senhora chorava no celular.
No portão de saída do aeroporto procurei um táxi, mas simplesmente não havia. A avenida inundada estava deserta. Uma funcionária da prefeitura ou do aeroporto, completamente desgrenhada e talvez um pouco louca, tentava de qualquer maneira organizar a fila de pessoas de todas as cores para pegar um ônibus salvador que não existia.
Era uma Babel surreal, onde reconheci o inglês, o italiano, o alemão, talvez o russo, espanhol e uma ou outra palavra mal amanhada em português. A funcionária falava um inglês horroroso, brutal, de sobrevivência, que funcionava apenas aqui e ali. Mas, exceto ela, todos estavam felizes. Como bovinos. Como se boiassem. Que chovesse daquela maneira apocalíptica era apenas melhor, pois talvez amainasse o calor, quem sabe. Era o tipo de coisa que se podia pensar.
Sai da fila e senti de novo aquela eletricidade nas entranhas, no pescoço, no gogó, uma leve vertigem, o começo de um extase alcoólico, febril, de alguma coisa que vem chegando inteiramente nova, desconhecida mesmo ou esquecida. Era ali que deveria morrer. Deveria morrer na quarta-feira de cinzas. Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Senti coragem. Voltei para dentro do aeroporto e me muni com três latas de cerveja e uma caipirinha.
Na frente do aeroporto a praça estava praticamente destruída. Algumas árvores haviam caído e a lama tomava conta de tudo. Vi o abrigo do ponto de ônibus e corri para lá. Não havia ninguém nas ruas exceto dentro dos carros que fugiam, criando ondas estranhas, não sabia que asfalto derretia. Ninguém. Não havia ninguém. Estava tão sozinho que tomei um susto ao encontrar aquela mulher encolhida no canto do abrigo de ônibus, o vestido branco curto, o salto longo vermelho, a cabeça encostada onde podia. Tentei aparentar calma, procurei um lugar onde batesse menos água e disse Oi. Ela não respondeu. O álcool sempre me deixou meio babaca, daí me lembrei da tal suspensão cultural do Carnaval, o que piorou tudo, me deixou mais babaca ainda, ao ponto em que passei a encará-la rudemente. Depois de um tempo ela tirou os óculos escuros e passou a me encarar também.
- Tá me achando bonita, meu amor? Ou perdeu alguma coisa?
Aquilo me deitou de volta no chão. Percebendo minha falta de educação, demorei um tempo para pensar no que responder, tempo suficiente para dar uma vantagem para ela, que começou a sorrir.
Voltou a trovejar.
- Desculpa, mocinha, acabei de chegar em Recife e estou sozinho, meio perdido, não queria incomodar.
etc
Ela ficou ereta no banco:
- E é? Vem de onde?
Sorriu mais aberto. Alguma esperança. Coloquei a mochila no banco e sentei.
- Venho de Porto Alegre, mas sou daqui. Vim só brincar o Carnaval.
Falava assim um tanto pausado, nervoso entre um gole e outro de cerveja.
- Quer companhia?
- Quem não quer?
Senti tesão. Ela era realmente bonita naquele corpo pequeno, mas suculento, diferente.
- Talvez eu também queira dinheiro, meu amor.
- Quem não quer?
Eu realmente não sabia do que estava falando. Falava como se fosse com um amigo, um amigo antigo, um amigo tão antigo que tolera imbecilidades aleatórias. E ela percebeu:
- Se você falasse só um pouco menos eu desconfiaria que você só sabe essas três palavras.
- Quem não quer?
Rimos. Funcionou. Ela riu menos, meio forçado, mas funcionou, eu acreditava. De qualquer maneira, me senti um pouco fora de lugar, desconfortável. Aquilo poderia muito bem ser um sorriso falso, ou um sorriso de comiseração, um sorriso criminoso, um sorriso de ocasião. Talvez tenha jogado tudo fora. Uma chance a menos.
- Quer um pouco?, oferencendo a cerveja morna.
- Quero nada! Eu tou é com frio, bebê. E cerveja dá barriga.
Puxou uma pequena garrafa de metal do sutiã enorme.
- Isso, isso aqui, isso aqui dá calor.
Esticou a garrafa até perto da lata e brindaram.
- E você? Não quer um pouco de calor? (mordendo os beiços)
Aquilo foi quase demais para mim. Falei de novo um Quem não quer?, dessa vez um pouco trêmulo. Sentia de novo a vertigem e um frio na barriga.
- Aqui calor é a granel. No peso. Quanto calor você quer?
- Eu quero tudo.
- Calor completo é trezentos.
As unhas estavam pintadas, a garrafa estava cheia.
Belladona. Morfina. Até parecetamol serve. Comigo-Ninguém-Pode. Comigo ninguém pode. Filha da puta. Procurei um espelho no cubo precário. Só havia mesmo o colchão e o vestido e as garrafas, todas vazias exceto uma. Puta que pariu, eu sou muito otário. “Mas esse vinho é docinho? Não gosto de vinho azedo!”. Pérolas pra porcos. Porcos mesmo. Que cama imunda do caralho. E eu devia ter percebido logo aquele sussurro no beco, aquele cochichar bêbado estranho trôpego assim sem mais nem menos, sem motivo, falavam de mim com certeza, aquele Luizinho não me parecia legal, puta merda, o que cachaça não faz. Como sou otário. Como sou otário! Essa merda de barraco vai se desmanchar, vai se desmanchar minha cabeça, vai cair. Vai cair na minha cabeça. Preciso ir embora.
A fronha do travesseiro estava agora cheia de manchas de todos os tons de amarelo. Não tinha percebido ontem, por causa da falta de luz, mas deveria no mínimo ter ocorrido, como sintoma ou medo do perigo, que aquele não era um quarto limpo, e num quarto limpo não há fronhas limpas. Fronhas sujas de tempo, suor e porra. De vestir, só o vestido, então foi o vestido mesmo. Imaginei que estava linda, que estava um arraso. Esses filhos da puta não vão acabar com meu carnaval. Virei o resto da uva de uma vez garganta abaixo. Deu um calor, sim. Lembro da chuva que ia se derrubando lá fora. Os pés já mostravam um desconforto, enrugados; calcei o salto alto, apertado. Treinei no barraco. Eu era uma miss.
A porta abria pra fora, mas não abria na hora. Um monte de lama prendia tudo. Tinha que pular pelo outro buraco. Antes olhei para um lado e pra outro da rua. Ninguém. Só água. Só vento. Só chuva. Não, ali estava um cachorro morto, com os pêlos derretidos, os dentes à mostra, teso, com o olho esquerdo aberto. Apodrecerá. Aprodecerá logo. Não estarei aqui. Antes ele que eu.
Todas as ruas pareciam levar para as mesmas ruas. Estava tudo marrom. Parecia tudo ser de amianto, zinco e madeira. Parecia tudo ser de pau-a-pique, parecia tudo estar coberto de barro. Ainda estava nublado, era o meio da tarde ainda, ou era o meio da manhã ainda ou era o fim do mundo mesmo. E eu, num vestido branco apertado, salto alto, bêbado, rindo.
Ainda onde eu pensava: é uma palafita, mas bem cuidada. Bianca - foi o nome que ela se deu - era uma negra forte, quero dizer, cheio de músculos, dura. Pequena, cheia de curvas. Educada, orgulhosa. Era um barraco, mas um barraco perfumado. Ela mal entrou e já estava nua. Colocava alguma música no minisystem e eu me permiti uns momentos de puro olhar. Muito pouco de tempo, porque não aguentei, me levantei e a agarrei por trás:
- Menino! Isso já tá aceso?, enquanto se virava esperta, apertando meu pau com força com as duas mãos: - se continuar assim vou ter que cobrar hora extra, hem?
- Isso não é problema...
- Tá um friozinho gostoso, não tá? Não é assim em Recife, tou achando que veio de Porto Alegre contigo.
- Frio que dá vontade de ficar com uma neguinha como você o dia todo na cama.
Que beijo. Ela parecia que comia minha boca. Uma língua áspera se enganchava, se enrolava, desenrolava nos meus dentes, na minha boca, na minha língua, na minha garganta, na minha cabeça.
- Gostoso…
Olhei pela janela. O rio estava muito cheio. Quando tinha visto outro igual? Talvez nunca. Mas a impressão existia. Senti uma preocupação estranha por ela.
- Tá muito cheio o rio, né? Olha quanto mato boiando! Se chover metade do que tá ameaçando…
- É por isso que tenho pouca coisa, bebê. Não é porque sou pobre, é porque o rio não deixa a gente ter muita coisa. Já perdi a conta de quanta coisa perdi. Olha, geladeira, fogão, cama, sofá, roupa… tudo. Uma hora a gente cansa, né, gatinho? Uma cama dá pra comprar. A gente vai vivendo. A gente vai fodendo…
Olhei de novo pelo buraco que ela chamava de janela. Aquilo já me parecia ruim, como um presságio, como um mau presságio. Parecia mesmo, pois foi só falar da chuva começou a chover forte, tudo de uma vez. Me senti um pouco mal, como se minhas palavras tivessem trazido a chuva, como uma maldição.
- Vamo pra cama, meu gostoso.
Era disso que gostaria de continuar lembrando. Uma lembrança de ternura. Nem que seja uma ternura paga, uma ternura mercenária. Mas ningupem acha ternura assim, do nada, mesmo paga. É preciso procurar, é preciso merecer. E ninguém fica impune. E eu sabia que não merecia, pelo menos não daquela maneira. Também não merecia estar ali, mas merecia ainda menos algum carinho, amor, qualquer coisa assim. Quanta inocência. Ou talvez um erro de cálculo. Deveria ter continuado com seus planos, sem esperança. Apenas chegar, destruir alguma coisa, ir embora. Dormir. Mas não, tinha que se apaixonar pela primeira criatura que visse mal chegasse naquela cidade maldita. Esse cheiro estranho, salgado, amargo, cheiro de lama, de lama pútrida, do resto do mundo inteiro que encalhou ali. Filha da puta. Filha da puta. Ela não vai estragar o meu carnaval. Ainda é sábado. Galo da Madrugada. Eu achava que ainda é sábado.
Lembrei do banco atrás, no táxi. Lembrei do cheiro de pecado. Nos amamos ali mesmo, sem pudor, para algum delírio do taxista, que não parava de olhar para trás. Com muitas mãos, com muitas reentrâncias, com muitos buracos, com muita pele, tudo se procurando loucamente em cima da imitação de couro do quintal do táxi. Em algum momento o taxista diminuiu a velocidade, eu percebi, não sei dela, o taxista dirigia apenas com a mão direita, a mão esquerda ocupada, e fazia beiços e traços e olhos em tudo extáticos, gemendo uma vez ou outra sem querer. Tanto melhor que a viagem demorasse mais, pelo menos nos primeiros 15 minutos, porque depois disso só queria estar numa cama.
Finalmente chegamos no barraco. Bianca disse pra que eu ficasse à vontade que ia dar um telefonema. Uma palafita, um cubo de resto de madeiras abandonadas, na beira do rio. Não cheirava tão mal quanto a rua; cheirava a canela e a pinho. Não era ruim. A cama estava limpa, eu achava que estava limpa, e me deitei tirando a camisa. A lâmpada fraca, amarela, dava um ar gostoso ao barraco. Poderia ser feliz ali, eu pensava. Finalmente, ser feliz. Sei que há uma distância, mas eu consigo. Preciso conseguir. Eu posso conseguir.
Ela voltou dizendo um Oi bem arrastado, num sotaque gostoso, quente, mais quente ainda naquela boquinha vermelha linda. Vem pra cá, vem logo. Que agonia é essa? Quero você… Mas olha só o que eu achei!
Pequenas pedrinhas amarelas. Crack. Me levantei da cama, pálido. Porra, que noite. Claro que ela notou minha cara, porque começou a rir bem alto, como se risse do último retardado, mas eu não liguei, estiquei a mão pedindo pra ver, era crack mesmo.
Chupamos o cachimbo.
Fumamos, cheiramos, bebemos, dançamos. Corremos nus pela viela vazia, ideia minha, nos pintamos, ideia minha, um cachorro nos perseguiu, chutei o cachorro, ideia minha, ela pintou meu cabelo, ideia minha ela pintou minhas unhas, ideia minha, ela passou batom na minha boca, rouge e blush no meu rosto, ideia minha, maquiagem nos meus olhos, ideia minha e fodemos. E trepamos. E fizemos amor.
E então eu eu não sabia que dia era e eu estava sem nenhum, perdido no estômago revolto de Recife, que se desmanchava a olhos vistos.
Sonhei no avião. Outra vertigem, um caleidoscópio por vezes horroroso, cheio de purpurina, lâmpadas incandescentes, farinha, drinks infernais, bundas, muitas bundas, chuva, muita chuva, um cinema, um cachorro-quente frio de papelão, macaxeira com charque, Capeta, bumbos, muitos bumbos, sujeira por toda parte, som alto estourado, vômito, brigas.
Mas não foi assim. Recife se foi, eu fui de Recife, levando um vestido, um salto alto, uma ressaca e um coração otário partido como uma taça.
 
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