terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

estreita rua que me guia,rua desses ladrilhos, tijolos secos e portas desmanchadas, luz de um lado e outro lado também, luz de vozes nas paredes, o céu desmaiado, ou dormindo, ou bêbado ou anestesiado, e ninguém soube.

estreita reta sem deriva e sem ponto final, sem cadarços, sem espaços no cimento para sementes.

vereda cega, pomar de cinzas, luzes de um lado de outro, vocês nas paredes, minha sola muda, milhas só lá, mudas.

cliente de deus, rua demente, morta, cabeça baixa, oca, por falta de opção. queria ter cabelos, a rua. pediu a deus, não conseguiu.

talvez falar, do jeito correto e diário dos homens. mas não conseguiu.

talvez andar por aí às avessas, numa pessoa estreita, com vozes na pele, sapatos de couro e ouro.

talvez encontrasse, como encontro, a vermilhidão bêbada de um céu de fevereiro, aleatória e só, onde esqueci saudades e nomes, onde tento achar sentido nisso que não há.

meu amor

Ela nunca atende essa porra desse telefone. E eu não sei qual é mais difícil pergunta: por que ela não atende ou por que continuo ligando. Talvez eu goste mesmo de sofrer, como dizem os entendidos da alma. O que acontece é que sei que ela me trái. Não digo, AGORA, ENQUANTO DISCO, E REDISCO, os números que poderiam me levar a ela. O que eu gosto mesmo é essa coisa de ficar de pau duro quando ela não atende. "Aquela puta": acho isso carinhoso, chamá-la de puta. Ela nunca permitiria, claro, só em pensamento. Ela também não é puta, literalmente, assim como não tenho, literalmente, chifres. A verdade é que gosto de ficar sozinho, entre um copo de outro de gin tônica e, num crescendo, ir discando, discando, até que ela atende, com aquela voz de outro mundo, aquela voz gozada, angelical, e eu, é claro, aceito suas desculpas, como se não soubesse, e não a chamo de puta, mas de "meu amor".

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

06/02/12 - 01

vamos deixar nossas roupas na entrada;
que pereçam em vendavais e escarros,
pés descalços, vassouras gastas,
restos de peixes, botas.
vamos olhar os olhos grandes nas janelas,
e nos manter quadrados, caretas,
ver o azul-preguiça,
e esquecer que somos gente
nas boas-vindas do carpete:
que o chão nos baste e reste
o que deus fez da língua e pele.

09/02/12 - 01

roda que te vejo
o matemático corpo.
roullete, meu azar,
teu aleatório olhar,
se para em mim,
me faz levantar,
para ir rodar
em ti.

sábado, 17 de setembro de 2011

cena de crime 6

ô de casa normal, com aquela timidez no grito, e cinco vezes bater palma nem tão alto nem baixo demais. com preguiça, olha pela fresta da janela: são dois, um homem, uma mulher. o que será que querem? primeira avaliação: suas roupas, casuais, simpáticas, como se fosse sexta ou sábado. mas não é sexta, muito menos sábado, e também não é educado assim chegar na casa dos outros tão cedo, ainda mais fazendo esse barulho todo. quem é mais alto que o devido, na tentativa de produzir algum aborrecimento na voz. nunca se saberá se deu certo, pois foi apunhalado dezessete vezes e não podemos lhe fazer perguntas. ou podemos?

domingo, 28 de agosto de 2011

mais um praqueles

você tem um minuto na minha cabeça
das 23:19 às 23:20
e de nada bastará tentar
lembrar tentar pensar
sequer não tenho idéia
de você subitamente tu
que se esgota nas vezes
que se detém nas paredes
e não volta
um minuto pra você é muito
é pouco
e que não conte mais
a frase mais bonita é "eu sinto muito".

constantemente

constantemente
o movimento
e o tempo
em sua forma cega
mentem
há mais que quadris
nos quarteirões e bares
mais breves que nas gentes
há uma rotina presa
em cada grade
em cada galho um eco
seco, que se desfaz aqui
o dia inteiro
há secar
em cada cara
do destino, quer
não quer
pode ser por ser
que nem um espera
em cada olhar a esquiva
do momento, e vamos por aí
a dar em nada, constantamente
em nada
nada depois de nada
voltamos ao frio e ao querer
que de manhã se farta
e se faz dentes
constantamente
ao invés
além

terça-feira, 23 de agosto de 2011

mais um

esta é a melhor hora
quando finalmente sento
e tomo umas ou todas.
será que tenho algo a dizer
enquanto aqui me sento?
algo para ficar calado,
enquanto espero o próximo copo.
espero, e ainda dizem que não
é nada.
então devolvam cada palavra
que tiraram da minha boca
farta de dentes e manhãs.
devolvam meus rostos
queimados nos cartazes.
os lugares por onde andei,
que, como qualquer morro, desabaram
sobre mais terra. que a terra cubra a terra
com mais terra.
sobreviveremos,
eu e meus amares subterrâneos, cegos,
meus vários narizes.
escrevo pra ficar calado, sentado,
quieto.
sem opiniões ou razões:
espero.
esta é a melhor hora,
quero vê-la passar.

sábado, 20 de agosto de 2011

mais um praqueles

beija-te apura
a folga do bom senso
intimidade e timidez
conosco mesmos
afaga e apaga ao mesmo tempo
que a loucura é cria do consenso
desespera-me-maltrata
velha desgraça e esperança de nós sendo
depois de tudo que não fomos juntos
depois de deus os seus os desapegos
conjunto nosso atrás dos braços
sejamos
porque a ida é vinda
e nós queremos

terça-feira, 16 de agosto de 2011

cena de crime 5

abro espaço pelos cotovelos, bundas e barrigas alheias, suadas, fedidas, enrugadas, e finjo que não ouço o que é só para mim. é muito mais difícil, e engraçado, pedir licença assim, com uma sacola de compras numa mão e um filho na outra. coloco a sacola na frente, puxo o menino logo atrás e vou de um jeito meio me inclinando, balançando para frente e para trás no caminho, com a ajuda dos ombros. piso em alguns pés, outros pisam nos meus, topo com uns vizinhos, abro um sorriso ou outro, e sem parar afundo com um dedo no bolo de carne. como suam, meu deus, e como têm histórias, e como têm nomes, e como riem, e como fazem perguntas.

finalmente chego, seguro meu filho atrás - ele berra, esperneia, se solta, me atrapalha, mas logo acaba: lá está o sangue, o sol e o corpo, os pedaços de vidro, enfim lamentos - soltos - e um tipo de silêncio, que não identifico. a vida é frouxa. sim. faço o sinal da cruz e vou de volta entre os vivos, mas agora só com os bifes e tomates amassados: o menino fugiu na frente, na direção de casa.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

como ficar sozinho em casa

primeiro: a culpa não é minha. agora essa merda dessa porta emperrada. porta só serve pra abrir e fechar, caralho, não pra abrir ou fechar. ou será o contrário? do contrário também fica legal, mas, e daí, se não queria mesmo sair? e se encaro isso como um aviso e vou dormir? mas é claro que você não vai dormir, dizem os travesseiros. afinal de contas, você acabou de acordar.

apenas queria tomar café na padaria, e pra quem peço isso? pra um objeto inanimado: dona porta. isso é de chocar qualquer um, me fez perder todo o resto de fé, e mesmo se der sono, no máximo vou fingir que durmo, ficar deitado o dia inteiro, olhando com olhos de medo pras minhas pálpebras, o coração ruindo a cada vento lá fora.

posso andar de um lado para o outro na casa, mas aí logo vem a descompostura assimétrica dos azulejos, as rachaduras absurdas nas paredes, as quinas tétricas cheias de teias: o desabafo da manhã
é
odioso.

terceira xícara de café, sim, contei. encaro a porta. encaro novamente minhas pálpebras e meus sonhos. deito a xícara na mesa, esfrego os pés, bato as sándalias e dou 6 passos. esqueci a chave. volta pra mesa: 5 passos. estico a mão e agarro as chaves, e tomo o resto da xícara. outros passos, tento de novo, e dessa vez ela abre, mas agora deu preguiça de ir pra rua e na verdade estou apenas de samba-canção.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

nas notas graves, adivinho
o sol a pino
a vida queimando
batem palmas, batem os pés
é a religião das pedras
um sopro bem perto do ouvido
um coração batido
mas notas graves, som de longe
uma graça a saudade
esse vento grisalho com tanta voz
dos relógios o com mais ritmos

sábado, 6 de agosto de 2011

a bala

com um quê de lâmina,
a história flutua no meu quintal,
e como que deflagra,
à queima-roupa,
todas as vezes que quis amar.
nossa sina
é solta,
é só,
se segura nas paredes,
testemunha de si mesma,
nossas fotos nos postes
dessa alucinada cidade.
linda,
mas não muito.
simples,
mas não tudo.
como uma bomba,
gente também acontece,
e nos escombros reconhecemos
a sala de jantar,
nua,
ou até mesmo um quarto.
passo por cima das pedras
onde fui feliz,
e deito no chão do quintal.
fragmentos,
estilhaços
dos seus passos,
pingos de alumínio,
vários céus
estraçalhando-se
imediatamente
quando olho.
me dê cada palavra,
ou aperto o gatilho.
me devolva cada palavra.
ainda dizem que não
é nada.
você apenas esperava,
depois foi:
a bala pegou de raspão.

domingo, 31 de julho de 2011

passeio de manhã

vejo o que você etc
por que não concordamos?
será a distância?
esse rancor tímido de alguns pés?
você etc
nada mais.
já te escrevi melhor,
quando não te conhecia.
o que dizemos ao regressar
é o mesmo que do ir embora?
será a distância?
o que nos devora é a hora
do despertar.
o certo é ser sonhado
debaixo das marquises,
nos terraços,
nos becos, nos braços,
nas mesas.
não há distância na maré do sonho,
não há terra e por isso não pés,
só a singular tristeza da alma,
o que nos falta
e o que nos sobra.
vejo você etc
enquanto ando,
e há uma hora
não sonho com você.
algo vaga
procurando certeza
como uma bola de fogo

nada atrái
mais que a finalidade das coisas
o precioso momento
quando tudo se justifica

apreciei a paisagem:
voltei pra casa
ela estava no mesmo lugar.

domingo, 24 de julho de 2011

sem título

curta o momento.
o momento é o que mais precioso existe.
o momento nunca nos abandona,
nem nos põe à prova.
o momento tem confiança.
só vivemos agora.
agora.
infelizmente
momentos são minúsculas quantidades de tempo,
jamais vu nos espera.
mas o momento é certo.

sem título

a vida é muito covarde.
ela corta caminhos.
ela esconde o trigo,
mas não o sal.
ela escolhe as palavras.
ela vira mesas,
ela pratica usura.
a vida é como a sombra:
só resiste.
mas só a sombra tem coragem.
sapatos gastos só servem pra grama:
alimentemos a grama.
é preciso ser menor que a vida.
é preciso ser mais covarde,
como quem ama.
é preciso esquecer,
fugir.
a vida está nas nossas costas.

sábado, 23 de julho de 2011

mais um praqueles?

as melhores coisas que eu disse foram pra você, quando eu te escrevia melhor.

mais um praqueles

a felicidade/alegria/gozo é um sentimento hiperultrasupervalorizado. todo mundo que já pegou numa nota de dez reais um dia sabe o que quero dizer. há experiências realmente sublimes, quase inexplicáveis - queria dizer milagre, ma non troppo -, que nascem da tristeza. criatividade é cria da tristeza. e há uma escolha a ser feita: um sacrifício ou o abismo.

o abismo é doce, como a relva lá. há um caminho a seguir, e ele é claro. o meu abismo é um vale.

o sacrifício é doce, como o mofo lá. há somente o que há de puro na memória, a estaca zero do mundo.

papo redundante

sinceramente, eu não arrisco: não sou um animal de sorte. a vida é mesmo dura, mas, e daí? dá pra encarar de qualquer maneira, se você tiver em mente que é apenas um punhado de anos muito perigosos. saiu um estudo que relacionava, não sei se é esse o termo - foda-se -, o consumo de vegetais ao câncer.

ontem era sábado. dia da semana para andar. andar por aí. os sábados são meus dias favoritos, a manhã mais perfeita. uma vez por semana. fui recitando césar vallejo: pienso si, en el bruto libre/que goza donde quiere, donde puede. tudo mentira, não durou muito. também não deu pra assobiar. mas era sábado.

andar é como fumar: você só vai morrer se fizer isso. então eu achava, vejam bem, que andando eu compensaria o hábito de fumar. isso só faria morrer duas vezes mais rápido, mas, na hora, a velha hora, me pareceu uma boa idéia. foda-se o cézar vallejo e foda-se essa coisa de ficar assobiando por aí como um doido, ora essa. é preciso se comportar adequadamente. então, a não ser que você tenha uma bolsa, ou uns óculos escuros, ou, sei lá, uma muleta etc, você terá um cigarro. ninguém anda apenas por andar. as pessoas querem interagir com o mundo, e meu modo de interagir é interagindo o mínimo possível. a maneira mais fácil de fazer isso é cultivando com bastante carinho um hábito desagradável, nojento, absurdo, e jogar isso na cara de todas as pessoas. é, eu estou falando da parte do cigarro.

cigarro é como um pé, ou uma pata, ou nadadeiras, ou asas. faz você andar - ou voar, mas não sei se avestruzes fumam - duas vezes mais rápido. quer parecer um doido? ande com as mãos nos bolsos, olhando para o chão, fumando um cigarro.

a parte engraçada disso é, claro, que eu estava errado. a verdade - que as pessoas sãs descobrem muito cedo - mas eu não fui, não sou, nunca serei uma pessoa sã - é que, se você quer interagir o mínimo possível com o mundo, você deve interagir o máximo possível com ele. ou seja, eu sofria de um excesso de mundo. isso não é bom. isso é transgressor. é como ficar gordo demais, deve ser como ser padre. hoje em dia eu estou mais tranquilo. não arrisco.

cortei toda a gordura e, depois de ler o estudo, virei vegetariano. é bastante fácil ser vegetariano, tudo agora tem sabor de carne. vou morrer mais de duas vezes mais rápido. infelizmente não vai ser tuberculose. aí sim seria do caralho. eu acho que é isso que faz as pessoas escreverem direito, não essa merda de andar por aí, fumar e ser vegetariano. isso é muito claro, mas só para/pra lembrar.

de qualquer maneira, ontem eu sai e não sou um animal de sorte. eu tinha conseguido passar o tempo muito depressa até encontrar alguns fatídicos amigos. a partir daí, lembro de tudo, uma miséria. e hoje é domingo, o dia da ressaca, bendito seja.

imagina-se que ser vegetariano e não comer gorduras faz com que você fique bêbado mais rápido. não arrisco. compensei isso começando a caminhar. eu estava errado: como fumava, uma coisa anulava a outra. uma porra de um jogo imbecil desses eu não entendia.

logo estava bêbado, como eu ia dizendo, com esses amigos, que todos os infernos os carreguem, e os macacos mordam as mães deles. não resisto a uma cervejinha. aliás, é a única coisa que dá pra fazer com seus amigos. une o útil ao agradável, se é que você me entende. acho que não. mas, enfim, eu sou um animal sem sorte. e acontece que eu ainda não tinha descoberto como compensar amigos. pelas minhas contas, eu compensava o hábito de caminhar fumando com o cigarro, mas ser vegetariano me obrigava a beber. e a gente só bebe com amigos. esse fator não tinha sido percebido no começo. os encarava como uns simples tropeços pelo mundo, aqui, ali, meio assim. ontem eu percebi que é necessário anular os amigos.

sem amigos os anos são mais perigosos. eu posso morrer um pouco mais rápido. eu li um estudo que relacionava - me perdoem, eu não estou acostumado aos termos científicos - não ter amigos com uma redução drástica na expectativa de vida. eu descobri ontem que preciso compensar isso de alguma maneira.

ontem, pela primeira vez, eu falei com as pessoas. então o jogo ficou mais ou menos assim: caminhar anula vegetarianismo, que anula cigarro, que anula a bebida, que você só usa com amigos, e anula amigos conversando com eles. a melhor maneira de se afastar de alguém é conhecendo essa pessoa. por aí.

acontece que a bebida multiplica, acelera o tempo. a gente fica mais perto da morte, principalmente se estiver com amigos. o tempo passa muito rápido, mas, é claro, é só ilusão. durante aquelas horas, você conheceu um pouco mais alguém. disse kafka - haha - Você é a lição de casa. Por todos os lados nenhum aluno. - e ele sempre foi muito mais certo do que qualquer um. não sei se interpretei errado o aforismo, mas acho que ele se encaixa aqui. pelo menos eu odiava lição de casa, quando era criança. era um horror. meu contato com o mundo, quando eu deveria estar criando mundos - caralho, que merda de frase, rafael -. mas era por aí mesmo, acho que fiquei traumatizado.

deixa eu ver se estou sendo claro, vamos recapitular: ontem era sábado, hoje é domingo, amanhã será segunda-feira, a temida das gentes, ou alguma coisa assim. e eu caminhava, para compensar o fato de ser ateu. não gosto de ficar no sábado sem fazer nada, eu precisava fazer alguma coisa, chutar umas latas nas calçadas, comer porcaria, comer alguém, fumar pra compensar o alcoolismo, andar depois do meio-fio, a gente precisa fazer alguma coisa, porque sábado é uma merda. uma vez por semana. sou anti-semita - me perdoem, não sei se de acordo com a nova ou velha ortografia o hífen cabe em antissemita - que é uma palavra muita/muito engraçada e óbvia, não sei porque enfatizo isso - por causa do ss - só pra fazer piadas pra chocar. não sei se ficou claro por causa dos hífens, mas eu não arrisco e hoje é domingo, dia da ressaca, não sei se já disse isso.

a melhor maneira de interagir o máximo com o mundo é interagindo o mínimo possível com ele. a maneira mais fácil de fazer isso é adotando algum hábito desagradável, cruel, marginal. como ter medo de morrer mais cedo. compensava o fato de ser comunista - me desculpem, não sei como se chama essas coisas hoje em dia - sei lá, como se chama essa coisa de ser a favor dos palestinos - andando. ou alguma coisa assim. sinceramente, eu não arrisco. mas ontem era sábado.

e tenho esses amigos, um punhado de crápulas que não valem um víntem, e quem anda com porcos farelo come, ou alguma coisa assim. são três, e estão sempre juntos. e eu sempre os encontro nas horas erradas. por exemplo: quando as horas estão passando devagar. acho uma visita num sábado uma puta de uma covardia, ato de bandidos, ladrões. vocês estão roubando meu tempo, mas não sei por que estou gritando. tá tudo relax. uma coisa compensa a outra e adiciona mais perigo ao tempo. ou alguma coisa assim. coisa. eu gosto da palavra coisa. ela tem um som legal. experimente falar “coisa” alto. sei lá, tussa. é igual a qualquer outro som, gosto dela pra caralho. tanto que classifico meus grandes amigos na pasta chamada coisas.

recapitulando: eu jogo um jogo, e, aliás, o que mais jogaria? sei, estou sendo redundante, mas estava faltando uma interrogação. ela precisa ser feita. e ignorada. a gente precisa ler em voz alta. as lições de casa. só interagindo o mínimo possível com o mundo é possível - possível - interagir o máximo possível com ele, o mundo. conpemsava - compensava - o fato de ter amigos com jokenpo. quem perdia virava uma dose. assim o tempo passava mais rápido e ficávamos vistos como idiotas, o que é uma maneira excelente de não interagir com o mundo exterior que está ao seu redor. eu ficava mais perto da morte. aliás, eu fiquei, aliás, foi ontem. ontem. aqui, uma exclamação:

Sr. você,

quando ler isso, você estará 39 palavras mais morto. ops, 66.

a exclamação do meu teclado, a tecla está quebrada. ando muito menos feliz e também menos incisivo. é preciso usá-la. mas mudo um pouco de conversa: estava falando do hábito de ser vegetariano. você não come carne. já pensou que eu já usei a interrogação. não, não como. por que.

isso é um excelente começo de conversa, ou seja, uma maneira de fazer você morrer mais rápido. durante uma conversa, espero que você já tenha passado por uma, então serei breve e só falarei o necessário: o tempo passa mais rápido, as coisas ficam mais moles, a gente corre mais riscos, sorte mesmo pro azar. ok. eu não consigo mais fazer as contas. não sei como o jogo tá/está. é melhor não arriscar, parar por aqui, curtir o domingo, esperar a segunda, ligar pros amigos, e por um ponto final nessa história, porque a gente tem coisa melhor pra fazer, como ficar mais perto da morte. adorei a conversa, tchau/ciao/xau.

domingo, 17 de julho de 2011

aviso preso num poste da conde da boa vista

sentei numa mesa onde conversavam punhetas, política, arte, essas merdas. alguém do lado me disse: escuta, o trem vai longe, e pra seguir não bastam pés. não sei se foi isso que me disse, mas foi isso que ouvi. logo estava atravessando a mesa, derrubando tudo, um desperdício - tanto barulho por um copo a mais. me chamaram de bêbado, de desocupado, acredito que me chutaram, mas alguma alma caridosa me levantou. eu vi o inferno, meus amigos, mas também vi os céus e umas calcinhas. tomei uns gritos solúveis num copo d’água, e na ponta da língua umas palavras que não, que não, porra, que não existiam - como se agora existissem... -, mas que serviram. o que lembro depois é de apenas carne na cama, carne presa nos meus dentes. era uma noite que não iria parar nunca, era um dia que nunca seria. mentimos as 4 letras gastas, descobrimos o que há de atroz nas rosas depois de uns litros. eu ainda quero tuas pílulas, tuas garrafas, tua gargalhada na hora errada, eu quero tua ressaca, mas, meu amor, eu não lembro de você. ao ver essa palhaçada toda, me ligue: xxxx-xxxx (por motivos óbvios não divulgarei o telefone aqui no blogue)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

sem título

as pontas somem
de cigarros e dedos
pelas pontes.

amanheço e é tudo.

minto: faço sombra.
eu faço sombra
e é um pouco mais que tudo.
eu sinto o sol,
é um pouco mais que nada,
tarda, mas estou vivo.

uns arcos baixos
reconheço.
de alguns anos de ciência
me recordo,
mas não enxergo:
não acredito em quilos,
muito menos em deuses,
mas ainda assim padeço
e corro
e sinto:
um dia sem espelho,
em suas lentas luzes:
ele está vindo.

sem título

tudo que nos une
é nossa pele

nossos muros
por baixo desse teto
outros furos

conto teus cabelos
aprendo tua língua
amanso teu desejo

nunca
eu digo nunca
e é como dizer pão

quinta-feira, 14 de julho de 2011

página virada

um tango passou o dia na minha cabeça: não sei qual é, se é argentino ou finlandês, canyengue o nuevo tango; pode ser que nem exista. mas logo eu, que não sei dançar nem mesmo um bolerinho fajuto dois-pra-lá-dois-pra-cá, aliás, nem mesmo rock’n roll... levei esporro do chefe, quase era atropelado, perdi o ônibus, o troco, o guarda-chuva no ônibus, a unha do dedão do pé... “esta noche me emborracho”, cantou um mau amigo. é minha obsessão: que tango é esse? e vou mal, perdendo as esperanças, as agulhas dos toca-discos, os números de telefone, as solas dos sapatos, foda-se: perdendo tudo. eu sei, talvez você pudesse me ajudar; mas esse tango não tem letra, e, infelizmente, páginas não sabem assobiar. provavelmente vou morrer assim: conto de um tango sem remédio.

domingo, 10 de julho de 2011

praia

há um banquinho com seu nome
na calçada;
daqui a gente vê o céu,
as nuvens também:
as pipas, pipoqueiros,
praças,
famílias, várias,
de todos os tamanhos.
a igreja, muito perto,
é só atravessar a feira,
carroças, rodas, poeira,
tudo vibra meio morno,
tudo existe meio solto,
e há um convite eterno,
é só esticar o braço,
mas você só pensa
na cama do fim de tarde.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

à guisa de aforismos

escrevo para ficar calado.

.

sou as palavras que não ouso dizer.

.

meio mudos
ensaiamos gagos
o soluço que somos

.

mais uma volta no relógio é perda de tempo.

.

tomara que caia.

.

só na contramão vem o sentido.

.

o que de valor aprendi comigo mesmo: imite e minta.

.

se há saída eu espero que não.

.

a poesia é um mendigo
que só aceita ouvidos,
crianças, solidão e dias.

.

de pé em pé
nas ondas:
procuramos areia?

.

o que melhor sacia a saudade, o passado, os fins de tarde: o trigo cinza metálico da fome.

.

aqui 10 graus, aí 2 horas, e ainda assim não conseguimos pensar em nada de errado para dizer um ao outro.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

ok

...demorei um tempo para entender que ela era ela porque foi quase um susto, tão de repente, tanta coincidência - juro que estava pensando nela um pouco, alguns momentos antes - um quase susto, sabe?, um susto meia-boca lá no meio-fio - esse pequeno precipício - quando já era um passo e da calçada tamos na rua - não foi nada de mais, se eu falo assim é pelo café, me desculpe, nada de mais, mas também não deu pra reagir imediatamente - foi como quando, sei lá, uma queimadura, ou seja, sabemos o que fazer, vimos na tv ou alguém nos disse, mas mesmo assim dói demais e por alguns momentos você “não sabe” que é pra colocar água gelada ou, sei lá, manteiga na queimadura, dependendo do grau ou nível de instrução na vida, não é?, não que eu tenha sentido dor, talvez algo parecido, mas nada tanto assim, espero que você me entenda, eu tou dizendo assim é porque eu só fui saber que era pra falar com ela quando eu já estava do outro lado da avenida e, você sabe, aquela é uma puta duma avenida, aí então eu tive que gritar, mas antes eu tive que pensar, claro, por uns milisegundos, se era melhor o nome ou o apelido, e todas as implicações disso, porque tinha muita gente na rua, era melhor ser mais específico, pra não errar e não causar nenhum mal-entendido, porque é um nome bem comum, mas aí ela poderia achar que eu tava forçando a intimidade, acabei me resolvendo pelo nome dela mesmo, mas foi como, não sei, saiu como um espirro, alguma coisa sem vogais, como levar uma topada em russo - foi isso que eu pensei, por mais idiota que possa parecer - e foi aí que tudo aconteceu, foi bem aí, eu tenho quase certeza que você vai achar ridículo, ou vai achar que eu tou ficando louco - eu mesmo não consigo decidir - enfim, saiu aquela coisa sem forma - eu devia ter limpado a garganta antes - mas bem alto, e então ela não olhava pra trás, eu tinha certeza não que fosse por ela não ter ouvido, mas por ela não ter ouvido ainda - será que eu gritei alto o suficiente? - se é que você compreende, quero dizer, o tempo passava, como sempre, óbvio, e era bem provável essa coisa do ainda, parece que o som anda apenas alguns poucos metros por segundo, então tudo que eu tinha que fazer era esperar, certo?, porque mesmo que naquele lodo sonoro ela não reconhecesse seu nome, ela iria olhar pra trás, por susto, reflexo ou costume, pelo menos eu rezava por isso, eu poderia pular e balançar os braços bem alto e com certeza conseguiria explicar aquela coisa oca que tinha saído por entre meus dentes - e aí seria outra reza pra ela entender - enquanto isso elanãoterouvidoainda me confortava, porque então seria apenas como sempre o tempo, e a gente se acostuma com o tempo, mas, é, durou mais ainda que o tempo, era como se o ar se tivesse tornado espesso demais e eu quase via aquele uivo sendo mutilado quando batia em cada quina de cada brisa, ficando com menos vogais, e cada um dos passos dela era uma taça caindo no chão, dessas taças bem caras, milhares de cacos, e eu não podia ouvir, apenas ver - o que aumentava minha esperança e minha dor - e dali a pouco, eu tinha certeza, seriam pratos, castiçais, lustres, portas e tetos de cristal, e ninguém ouviria, e eu ia ficar ali sozinho com meu grito, e eu ficar ali cada vez mais eu, debaixo daquele sol filho da puta - eu via, porque a luz anda mais rápido que o som, assim me disseram - e as pessoas iriam olhar - tenho certeza que aquele senhor não tem nome de mulher, mas ele olhou quando eu gritei - esse sujeito estranho aqui, parado no meio daquela rua larga como a noite, as pessoas nos ônibus, nos degraus, nos colos, as pessoas surdas até, as pessoas cegas mais, exceto ela, e também eu não ouvia, com certeza, as buzinas ensandecidas bem atrás de mim, como o meu grito elas também iam pelo ar difícil, se quebrando, se desminliguindo, se é que existe essa palavra, não importa, as buzinas competindo com os “filho da puta” ou “corno” atrás de mim, porque buzinar é sempre melhor que frear, assim parece, eu iria morrer, virar foto no jornal, mas eu não conseguia tirar meus olhos dos copos e tetos que caiam, e resistia, para dar sentido ao dia - à crueldade mínima do dia - o dia em slow motion 360° 3d, o saldo disponível do dia, as 8 horas do dia, os lenços úmidos e os apertos de mão do dia, o fim do mundo do dia, vocês, adeuses e acolás do dia, as pontes do dia, eu esperei e resisti, e então ela dobrou a esquina e eu fiquei com o consolo tolo, que de nada serve, de pensar que ela talvez não fosse ela, me atrasei um pouco pro trabalho e meu problema agora é descobrir porque eu contei isso pra você.

terça-feira, 26 de abril de 2011

cena de crime 4

mais um dia sem propósito eu chego em casa. não sei por que comprei essa secretária eletrônica (apenas para sentar perto dela e tirar os sapatos, todo dia, às 19:30). meu banho frio, as luzes apagadas, fazer o jantar (um pedaço de pão, um pouco de presunto), ouvir rádio (não tenho tv) e alguém grita na rua. um grito horrível, desesperado. pras bandas do banheiro, talvez, pra onde corro, até a pequena janela: um rasgo de luz na rua (carros, fotos?), chuva, lixo e outro grito: ninguém. eu estava errado. meu apartamento tem poucas janelas. talvez do quarto, e até lá, enquanto isso, outro grito (talvez “NÃO!”, não entendo). da janela do quarto outras janelas de outros quartos, outras pessoas nas janelas dos outros quartos, mais chuva, mais rua, mais lixo, mais gritos. é uma mulher, tenho quase certeza, mas ainda não vejo. talvez na área de serviço, dá prum terreno baldio, o lugar perfeito pruns gritos. corro até lá: sem luz dessa vez, e por consequência não há lixo, não há rua, quase não há chuva (apenas no meu rosto pra fora do prédio). mas ainda há gritos, e pouco depois não.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

alguém longe

lento levo
o que tenho de sagrado
fome e ar e ser e solidão
esse tudo apenas tudo
mas não com mãos
(não tenho a que sirva,
ou bolsos, costas,
caminho pra levar)
o que tenho por sagrado
tempo sal areia sol
levo nos olhos
que dos abraços escorrega
tudo apenas tudo tu

quinta-feira, 21 de abril de 2011

cena de crime 3

esperava justamente uma sala com gente.

todas elas fumam, e tomam chá ou café, e não conversam baixo o suficiente. ninguém chora. trabalho com isso já vai quinze anos, e nunca vi ninguém chorar. quero dizer: eu vi, mas nunca chorar de verdade: eu já chorei, sei como é. faço um teste, vou até o bar, me sirvo generosamente do melhor uísque. é claro que todo mundo olha. mas ninguém chora. é hora de acender um cigarro e fazer cara de cu. afinal, eu sou foda, eu sou expert. pego também um pouco de queijo na mesa e finalmente digo boa tarde, e é todo um susto. como sempre. estou cansado dessas velhas. faz parte do show virar o uísque, como se a gente não se acostumasse, como se fosse preciso uma grande dose de coragem pro diário.

me dirijo ao quarto imediatamente após. já tinham me adiantado boa parte da cena, inclusive a nota de suicídio "desculpem a sujeira". não tenho muita coisa a fazer a não ser fechar a porta atrás de mim, evitar os curiosos, as pessoas que falam alto demais, as pessoas que gostam demais daqueles 70kg de carne morta.

sento na janela, o único lugar confortável do quarto. faz um sol danado, eu sei, não é tão bom. mas eu gostei da janela: dá pra esse jardim de lado, esse cheiro de lírio muito forte de depois da chuva, o vento, e daqui vejo o quarto todo. só mais 5 minutos e eu assino.

terça-feira, 19 de abril de 2011

cena de crime 2

ela pensou que sentiria no quarto um cheiro muito forte de cerveja e cigarro, mas a noite tinha tornado esse um cheiro impossível. já fazia algum tempo estava sentada na poltrona branca do motel, o nariz os olhos cotovelos acostumados a tudo, não sem a ajuda da cerveja barata e quente. gostaria de conversar com alguém, mas o velho com certeza tinha morrido. quis estar sóbria. quis entrar outra vez pela primeira vez neste quarto. quis fechar os olhos e tentar pensar, mas teve medo: os olhos fora das órbitas, o rosto verde do velho: "como um sapo!". sexo barato, amor de praça e "e agora?". ela tinha ouvido falar, algumas noites antes, de como ganhar dinheiro realmente fácil. o velho gostava de beber, se adicionar apenas um pouco, um pouco mais de grana. "sexo menos barato, mas com um sapo".

poema de amor x

3am penso em você.

eu sei, amor, não é um bom começo,
mas esse é assim,
por que quero te dizer agora,
e tudo está dormindo,
exceto você.

três da manhã eu quero a pedra,
o momento e a vidraça certa.

três da manhã, e eu preciso te ver,
talvez por aqui,
nos meus olhos;
quem sabe no poema,
onde eu não possa:
aqui ali ou fora do lugar:
três da manhã é complicado,
eles, roucos, nos cantos da casa
entricheirados,
pedaços de terra
que um dia botamos debaixo,
feitos das pernas finas do mundo
e de horas pálidas.
é foda,
e há música lá fora,
(três da manhã!)
onde seu rosto dança
seu sorriso,
só ou coletivo ou louco,
aquele mesmo sorriso
que anda sossegado
nas bocas menos francas.

três da manhã
eu quero a pedra
a vidraça
o momento certo,
e eu quero você.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

como acontece

cansei de descobrir coisas. no fundo, é como me disseram, é tudo igual. tudo que vale a pena ou é muito raro ou é muito comum: não vou mais lutar pra descobrir se existe diferença.

aconteceu ontem à noite, quando eu voltava para o meu quarto, o mais novo, alugado há apenas 2 semanas. as pessoas acham que não, mas é difícil viver dessa maneira. você nunca se acostuma com acordar e a gente sempre veste a mesma roupa. mas decidi viver assim, e, mudando um pouco de assunto, sempre acreditei que existe algo como o destino. acredito que há algo de determinado antes no curso do tempo, um ou outro momento terrível ou sublime que muda nossas vidas.

antes do meu quarto, tenho que andar no escuro um corredor, talvez 10 metros, duas paredes, o céu. descobri, ontem, que gosto de sentar num pequeno batente, que por aparente coincidência decidiu existir bem ali, e apenas olhar pra cima. é um lugar perfeito demais para ser por acaso. ontem eu dormi por lá. não por tristeza ou acidente, mas porque durante aquelas horas minha vida foi apenas olhar pra cima, e não ver nada.

cansei de descobrir. talvez aquele céu tivesse mais coisas para me dizer, talvez eu devesse saber onde fica vênus, mas era só um céu, desses que poeta nenhum fala.

sábado, 16 de abril de 2011

álcool

eu não consigo escolher as palavras certas pra quando não te vejo. posso tentar. o que eu sinto é medo do tempo. mas não do tempo tempo, esse que passa. tou falando do tempo que vai e volta, que a gente conhece.

hoje é sábado. sábado é um dia muito especial, um dia quando dedico todos os meus esforços para que o dia passe muito rápido. fiquei na cama durante umas duas horas depois que acordei, pensando no que poderia pensar, que levou a pensar no que eu deveria fazer com todas essas horas. normalmente eu bebo. é, mas não imediatamente depois que levanto, é mais ou menos depois que eu tomo banho e como alguma coisa

tudo descamba pra confusão. talvez não seja bom beber hoje. eu poderia ler. sóbrio. tento então vários lugares da casa, mas está fazendo calor demais.

como é que isso pode aborrecer alguém?

“está fazendo calor demais”.

tenho medo das coisas e tenho medo do tempo. da meteorologia.

talvez se hoje estivesse chovendo, eu estaria bebendo. mas não é o caso. no calor, não resta muita coisa a fazer a não ser ver o tempo que não vai passar. não esse tempo que passa, que a gente mata, tão bonito, tão comum.

já é muito tarde enquanto escrevo, e já é muito longe. eu disse que é difícil escolher as palavras.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

cena de crime 1

o cadeado emperrou. por pouco não decidi forçá-lo, descobri antes que era outra chave.

um pouco antes de fechar o cadeado, por talvez a extensão de um suspiro, achei que tinha esquecido de algo.

volto então para dentro de casa.

tenho de repente a idéia de que estou na cena de um crime. e não lembro do que tinha vindo pegar. entro em casa e há uma loira fenomenal de vestido vermelho sangue igualzinho a cor do chão. encontro o que tinha esquecido: o guarda-chuva. nesses dias, não se sabe, não é? depois, fecho a porta, sento no sofá e fico pensando no que poderia ter acontecido. com certeza não estou louco: fora algumas alucinações que experimentei, quando mais jovem e boêmio, não tenho histórico de alguma coisa quebrada no cérebro.

talvez eu a tenha matado. quem sabe, o choque tenha levado embora essa parte da minha memória. eu sempre me sinto assim, pela manhã. mas nunca tinha matado alguém e esquecido. além do mais, meu apartamento não parece do tipo em que mora um homem que costuma ter encontros com esse tipo de mulher.

mas foi só o tempo de ir até ali, fechar o cadeado...o que aconteceu? não importa. o que devo fazer agora, já que fui de uma pessoa normal para personagem de ficção policial?

as cortinas tem intenções próprias. assim o vento batendo, quebrando a luz... me fizeram querer um cigarro.

assim fiquei até a polícia chegar e assim foi o meu dia.

terça-feira, 12 de abril de 2011

olá

a piada é sempre da maioria. não importa o quanto, ou como ou o quê você tenha pra falar. não só não te escutam, mas tem até duas ou três piadas para dizer a respeito. ok. eu não sei a que minoria pertenço. talvez à dos descontentes. mas, olha lá! há algo estranho nisso, muito popular. talvez uma maioria. a gente quer mesmo fazer parte de algo. então, deixa eu ver... eu vou ser da minoria... dos... que tomaram um tremendo dum banho, quando o ônibus passou cima da uma das superpoças que os prefeitos do recife fazem na cidade, principalmente quando chove. estou certo que são muitas estas pessoas, mas se trata de uma minoria.

pois bem, eu suspeito que eu não estava no lugar certo. simplesmente tinha ido passear um pouco, na chuva (outra minoria, loucos). mas eu estava no lugar errado, na hora errada. e assim eu pude pertencer a esse grupo de pessoas que tiveram seus dias arruinados por estarem no lugar errado num dia de chuva. é, um péssimo dia. mas eu achei que poderia ir adiante, afinal, estava chovendo, não faria muita diferença.

mas tente andar, simplesmente andar, na chuva. porque está chovendo. você pertence então a uma outra minoria, a essa aí.

e aí você entra num mundo onde você está só. ninguém quer se molhar. mas pra você tanto faz. e é difícil, é complicado mesmo. porque você já tentou de tudo, mas bastava ficar só. dependendo da época do ano chove mais.

eu desafio qualquer um a passar mais do que 5 minutos passeando na chuva. apenas isso. tudo vai ficando cada vez menor, e você vai deixando de ter importância... até onde der. todos nós paramos. eu acho que alguém que continuou faria muito estardalhaço, entrevistas coletivas, shows de rock, minisséries, quadrinhos o escambal. então, não.

mas nem sempre está chovendo. felicidade são alguns cacos. eu acredito que dá pra ser feliz com quase qualquer coisa. tem muita merda acontecendo no mundo, mas, e daí? eles estão muito distantes daqui. aqui é tudo tão bom. a gente só tem que escolher entre viver e viver, todo dia. mas às vezes você está no lugar errado, colega. talvez distraído demais. e aí você se suja todo de água suja, e você é a piada do mundo.

é muito fácil o dia dar errado a partir daí. você estava atrasado, que tal? ou querendo parecer um pouco mais bonito. não importa. as pessoas vão entender: é um acontecimento horrível. exceto se você continuar.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

ps

Escrever é absurdo. Escrevo vacilante, pois o que acontece é que não sei como escrever o que penso agora. Há dias não durmo. Sei que não sei mais o que são dias, mas posso dizer “sim, não durmo”, desde que apareceram essas páginas, e as canetas, e que faz bastante “tempo” que passei apenas olhando para elas. A chegada desses estranhos fez evaporar a paz que tanto demorei para encontrar. Mas se é pra dar uma noção, para algum improvável leitor, então há dias não durmo, mas talvez o certo seja dizer “já não sonho; já não fujo; já não lembro”. Tudo se transformou no intransponível presente, no imediato dessas páginas, na dor de descobrir que estou vivo, e que alguém sabe disso, ou pelo menos espera por isso.

Só pode ser mais um castigo. Que razões me levariam a escrever? O que escrever? Para quem? Quem me mandou esses objetos? Quais os seus motivos? Nas minhas condições, a esperança é um tipo especial de tortura. Esperar que o mundo retorne. Esperar encontrar alguém. Esperar o sol, o ar. Não sei o que seria de mim antes se tivesse esperança: talvez já estivesse morto, ou completamente mutilado. Mas agora eu tenho esperança e tenho medo.

Não, não seria racional: uma espécie de castigo assim envolve riscos desnecessários. Não seria institucional; mas fiz alguns inimigos, pessoas que me conheciam bem, com poder. Mas não cabe pensar muito.

Enquanto ainda me resta algo, e já que é impossível ter certeza, me controlo e escrevo. Não sei a quem me dirijo ou, mais importante, o que essa pessoa sabe; na verdade, não sei nem mesmo se você existe, mas não tenho escolha. Que mais há para se fazer? Poderia cortar meus pulsos com a ponta da caneta, ou me engasgar com as folhas de papel, mas esse não é o motivo desses objetos. É preciso viver de acordo. Quando entrei aqui, aceitei que, exceto pela inanição, não existe maneira de escapar. A fome como pílula de cianureto. Mas não havia ninguém para contar. Talvez agora. Agora eu posso falar do meu mundo.

O cubo é revestido de borracha cinza, para que eu não me machuque. Um sistema de ventilação bastante avançado garante que eu respire, e só alguém bastante acostumado pode saber onde se encontram os minúsculos dutos, nossos elos de ligação com o exterior. O cubo foi completamente selado depois da minha entrada, parede, teto e chão, são exatamente iguais, exceto pelas 4 lâmpadas brancas que nunca se apagam, no teto, longe do meu alcance, a três metros de altura. Um chuveiro, num dos cantos (não sei mais dizer se direito ou esquerdo, mas é uma referência). Para acioná-lo, há um botão vermelho. Há outro botão vermelho, para pedir minhas pequenas barras de comida desidratada (isso impede que eu me suicide comendo demais, e também torna desnecessário o uso de talheres). A água eu bebo direto do chuveiro, e ela contém substâncias que impedem o aparecimento de algumas doenças de pele, e a borracha também parece ser bastante resistente ao mofo. Não duvido que nas barras venha alguma quantidade de antibióticos. Isso é necessário, já que não é possível, de acordo com a lei, saber dos estados dos reabilitandos, mesmo com algum acordo expresso. Simplesmente se assume que o melhor, já que estamos em condição tão degradante, seja que ninguém saiba a nosso respeito, pois do contrário isso iria ferir nossa dignidade e privacidade...

Estou completamente nu desde que entrei aqui e durmo diretamente no chão de borracha. Isso impede morte por enforcamente ou sufocamento, mas às vezes faz muito frio. Também não sei se devo ter mais medo que as luzes fiquem acesas para sempre ou de que um dia todas elas apaguem e eu me veja completamente no escuro. Talvez não exista diferença: quando se conhece todos os detalhes, não existe mais nenhum. De qualquer maneira, na débil situação em que me encontro, ter que lidar com a escuridão eterna, algo com o que nunca tive que lidar por mais de 10 horas seguidas, me causa uma angústia que não consigo exprimir.

Tenho pesadelos horríveis a respeito de um parafuso solto no setor de distribuição de alimentos. Não há nenhum estímulo exterior e quase nada para fazer fora pensar. Também não sei quanto tempo se passou, ou se é dia ou noite. Só as unhas, a barba, o cabelo, me dizem que o tempo ainda existe, que ainda há espera. Tenho dores de cabeça e quase nunca tenho fome e quase nunca durmo. Vejo pessoas que com certeza não estão aqui e me pego às vezes falando sozinho. Imagino de maneira tão vívida o campo! Meus pés nas pedras da beira do rio, rolar no capim... capim, rio e campo onde nunca estive, a não ser aqui. Às vezes agradeço toda a dor que pode existir em três metros cúbicos, porque é essa dor que me mostra tudo que é possível: é nesse ponto que nós chegamos. Às vezes é difícil voltar, sentir que não apenas estava sonhando acordado, mas que estava saindo do meu corpo. Nem a memória resiste quando o tempo morre. Permanece, mas de outra forma. Ela se torna algo mais que lembrar ou lembrar de lembrar: essas ações se relacionam com o tempo. Ela se torna um lugar, o mundo onde vivemos, a fonte de toda e qualquer experiência, o presente, o único elo com o futuro. É preciso deixar toda esperança lá fora. Não há mais inocência ou utopia. Há a inércia de fato, física, e a decorrente degeneração. Mas algo sobra, no interior. É preciso viver uma atopia. Não sei se posso chamar isso que sinto de livre. Nada nunca é livre. Mas pelo menos é mole, solto. E eu não sei mais o que dizer.

*

Carta sem data, encontrada na cela a-65, depois da abertura obrigatória. Causa da morte: indefinida. Processo iniciado para investigar as circunstâncias em que as páginas e as canetas foram entregues ao reabilitando uy76590.

sábado, 2 de abril de 2011

reescrevida 1

as portas teimam em emperrar, quando as quero abrir. acho que é porque perdem sempre e sempre, voluntariamente, parte das funções que têm, e que infelizmente são apenas duas, abrir ou fechar. a dúvida de cada uma delas é decidir onde existir entre os inúmeros ângulos em que sua estrutura pode se colocar e que, ao mesmo tempo, os outros possam dizer "está aberta", ou existir em apenas uma posição para que digam "está fechada" (deve ser unânime), com nós, cadeados, chaves ou quanto mais irreversibilidades inúteis se queira. é a posição mais difícil de acontecer, mas deve ser mais confortável, mais estável, mais decisiva. eu mesmo sei como é difícil escolher, de forma que compreendo perfeitamente os seus rangidos. compreendo perfeitamente que o lado de lá não deixou de existir por causa da teimosia de alguns quilos de madeira. em que se baseia o meu medo: em não querer acreditar que o motivo das portas é fechar. elas não impedem, elas escondem.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

vida

me ensina teus enganos,
quem sabe assim eu acerto.
eu te acerto num desengano,
enquanto olho pro lado,
tropeço:

tchau

existem pessoas que esperam deus.

acordo que não faz mal;
percebo o teto, esse pequeno obstáculo,
"por quanto tempo?" basta:
saio fora pra olhar
e não é que não me vejo,
é porque as coisas são bonitas
e eu não posso tê-las

a não ser brincando assim,
sem levar a mal,
brincar de dar nome às coisas e esquecê-las,
já que estou vivo, aceito, vida.

quarta-feira, 30 de março de 2011

sem título

na areia vai aparecer amor por acaso, e ele terá todos os versos de caminhos demais, mesmo os que não cabem e os que se sabe. lá estará o mar, e a parede azul e nossas bocas de sal.

terça-feira, 29 de março de 2011

poema 1

muito cedo, vi um poema,
bêbado, com seus passos preces
não atendidas, avessas, na ponte:
então pula, some, amuleta amantes,
se esconde nas ingratas
madrugadas, tenta rir nas horas
que o deixam pra trás

rasga a manhã com os dedos sujos de medo:
é mais um dia, grita argila, sobra pó,
só, sobra pelos cantos:
esqueçamos teu nome e o que disses:
tua amiga, a fome, vê se engana.

sonha o mundo ser teu cheiro de gaveta
e não esqueça de deus,
desde que reze em versos.

e se por acaso a noite voltar,
você, poema, finalmente seja,
demore, defume, envelheça,
venha sem boca, morto, sem beleza,
faça com que finalmente te conheçam.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A Santa

Aconteceu que uma senhora ficou completamente só, como era seu projeto há tantas décadas, tantas que sobrara então apenas um pouco de tempo, pouco mas suficiente para admirar sua obra: um cubo de madeira e argila, completamente selado a não ser por uns poucos buracos irregulares no teto (para o sol e para o vento, como pensava), e seus pertences eram apenas um fogão, uma mesa e uma esteira: havia deixado tudo o que considerava inútil para trás, coisas e pessoas e imagens e idéias.

Passava os dias assobiando as músicas que sua cabeça criava ou fingindo conversar com seres invisíveis, numa língua que, como parece conveniente, só ela entendia; dormia pouco, sempre na esteira, um sono cheio de sonhos, que passavam por ela provocando tremores e gemidos; meditava longamente, imóvel como o resto do seu minúsculo mundo, olhando para alguma figura que pintava nas paredes, no teto ou no chão de argila, com a lenha queimada, assim que acordava (provavelmente sobre o que tinha sonhado); o resultado dessas meditações era às vezes longas risadas, muito espontâneas, que acabavam em crises horríveis de tosse, que colocavam sua língua para fora e deixavam sua cara vermelha; por sua vez as crises davam lugar a um riso baixinho, quase envergonhado, num canto do cubo, entre um tossido e outro; andava de um lado para o outro em silêncio, durante muitas horas, e cozinhava, e comia.

Suspeito que era feliz, sim, até que um dia, ao terminar de cozinhar, achou de colocar a comida sobre a mesa. Foi então que tudo se acabou. Seu olhar era só perplexidade durante o tempo (segundos, minutos, horas?) que passou entre perceber e entender. Finalmente lançou todo tipo de maldição na sua antiga língua, se condenando por ter falhado, por ter trazido para sua perfeita e última casa um objeto completamente inútil, a mesa, para logo depois falar palavras de lamento e consolo, quando percebeu que na verdade havia esquecido de trazer uma cadeira.

Depois da dúvida e do arrependimento, veio a morte. Morreu porque não se lembrava mais que tinha sido sobre a mesa que tinha feito amor pela primeira vez, que dessa relação tinha nascido o seu filho, a mesa em que servia as visitas, com seu olhar e seu sorriso de criminosa.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

lembrança

finjo que o sim
se esconde em rostos
assépticos, sedativos,
nos risos paralíticos
nas fotografias

musa

certas palavras erram
na geografia inexata
das cabeças,
até que acham seus passos
nas gargantas
e vão embora pelo ar,
dizendo.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

de onde vim

os porta-vozes da morte
estão mortos, suas cabeças
livres dos cabelos, seus dentes
livres deste pasto, seus passos
livres das areias, seus rostos
livres dos meus olhos, suas lembranças
livres pelo resto, suas bocas
livres do silêncio
de dizer que iremos

quinta-feira, 29 de abril de 2010

fim de tarde

vermelhas são as nuvens
feridas no sol, agora
esquivos como dois amantes.

paralelas

as pessoas passam
como as pedras
na calçada ardente.

sexta-feira, 12 de março de 2010

labirinto

como filas
como pão
como copos
como não
amar teu endereço
(se me pedes, esqueço,
como esqueço meu nome,
ou essa fome que te chama
saudade).

como prever meu destino,
como meu fígado,
meus pés,
como símbolos antigos
(escada, escudo, espelho,
labirinto).

sábado, 23 de janeiro de 2010

1

Saindo do consultório, x começou a pensar que poderia ter cuidado de si um pouco mais, porém “os anos em que eu estava bem foram anos perdidos. Aqueles anos felizes, sem susto. Essa coisa de ser saudável não é saudável para mim”. Mas o mundo está um pouco diferente agora, o diagnóstico é certeiro, e essa já é a terceira opinião que ele recebe. X imaginara um dia que não deveria ser difícil uma condição dessas, que poderia ser até bem melhor do que morrer de uma maneira estúpida ou dormindo; foi bem na época em que leu A Morte de Ivan Illich. Agora esse livro lhe parece cruel e hipócrita demais, e ele se põe a chorar. Logo ele, bem no meio da rua!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

árvore nua

ontem pela tarde você na rua; todos na janela. você como era ontem não tem mais, a não ser seus braços verdes nas pedras, as pedras que continuam lá, para todos ver morrer, todos certos que a sombra das pedras é igual à sua, todos que viram o dia passar.

dia hoje pelas ruas mais estreito, enfim o sol cobre os vivos como também cobre as telhas. “restitui-me a boca para falar”, você diz com um tipo especial de certeza, certeza de cabeça no cepo, certeza um momento depois, certeza cabeça solta, olhando o corpo e a multidão, certeza única certeza.

o que restou dos seus versos, Neda, ante as armas de todos esses martes, foi uma voz nova, negando o silêncio da morte, um enorme poema que você nunca pensou, mas não por isso nunca pôde dizer.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

exposição de motivos

isso que guardo
nessas quatro paredes
de carne,

isso que levo de mim
escondido:

não é da matéria da pedra,
nem está convicto do vento,
não passa em minhas artérias,

resiste a todos os acordos.

sua única bagagem:
os mortos.

andou lugares onde nunca estive
e ainda assim implora de mim
um sopro de vida.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

chuva

cresce uma chuva
no jardim
enquanto fumo um cigarro.
cresce uma chuva
que me de repenta
em cima do muro:
cresce uma chuva, mas não é
uma chuva fácil,
dessas de metáforas baratas
(de cheiro de chão);
cresce uma chuva
que não apenas faz dos passos
(um ou dois) mais rápidos
nas esquinas sedentas;
cresce uma chuva,
que não faz apenas
calor humano de marquises;
cresce uma chuva
que se o mundo soubesse,
estaria nos mesmo braços.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

rimas

sê pele-sinfonia ou pelo menos resto de batom, que ainda és lápis gasto em papel morto, tombando migalhas de som, teu fio de cabelo na comida, abraço atrasado de avenida, um beijo torto, cansado, um colo como se pasto, suspiro fora de tom

em pleno meio-dia.

domingo, 6 de dezembro de 2009

um samba

é preciso fazer um samba,
de versos sambados,
pros que não são bamba,
pros amargos sedentários
que não têm mulatas
(como todos têm).

um samba sem barraco, sem botequim,
sem mea culpa, sem classe média,
sem afro-chique,
mas com uns versos de morro,
uns versos mais pra cá
do que pra lá,
pros doentes do pé,
pros já não muito católicos,
pras mulheres sem ioió,
e pros homens sem iaiá:
uns versos sambados
pros que não sabem dançar.

uns versos sambados,
perna-de-pau, sem mandinga,
quizumba ou fuzuê,
uns versos pros que fazem moganga,
uns versos pros sambados sem muita muamba.

uns versos pros que moram na filosofia, maria,
pros que não são lá muito do balacobaco,
pros sem patuá, sem requebrado,
pros sem pandeiro ou tundá,
uns brasileiros assim meio sem brasil,
sem muita malandragem,
num brasil que quando se chamar saudade
todos vão sambar.

passeio no centro do recife, depois de uma farra

camelôs com seus negócios da china
mal-começavam a enfeitá-la,
e apareceu meio súbita,
meio mal-dormida,
meio com saudade de casa:
a ponte se pariu de repente,
para que eu me sentisse só de verdade,
andando nos seus ares de avenida
"belle èpoque",
pensando nas suas ferrugens
de debaixo.

más intenções

escrevo rápido
como se fosse crime,
conspirando,
à noite,
escondido das polícias
de deus,
mal-intencionado:

mas minhas mãos
não são cúmplices
das quatro paredes do dia.

a poesia é evidência
não da cena do crime quiromaníaco
que é escrever,
mas dessa cena criminosa
que é o mundo.

a poesia é evidência
de que o silêncio nunca fica impune.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

preta

ela apaga a luz
e no escuro
acende todas as portas.
no escuro
os olhos-só-olhos são
como a mão que resta e esmola mais.
ela apaga a luz
para que eu veja a palavra indistinta;
ela mastiga minha língua
no escuro,
para que eu grunha propósitos.
ela apaga a luz
e me faz ver que beijos eram só beijos,
que toda face é infinita
no escuro,
que somos pele-poro-brusco,
pele-toda-instante,
no escuro.
apaga a luz
e, no escuro,
me faz ver que o perto
era muito longe,
ela apaga a luz e me mostra
que querer é sem querer,
no escuro.

rafael laete, 04/12/2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

urbano

porque achei que precisava,
comprei algumas coisas,
coisas sem rosto,
que dos nomes nem me lembro:
coloquei-as debaixo do braço.

nesse espelho, por mais que pague,
não me vejo.

isso que ata mais nós
na garganta, botei debaixo
do braço, que achei que precisava
fazê-lo meu:

"um dia, ah, um dia:
das gorduras do meu sovaco".

e eu andando nesse espelho
prenhe de morte,
espelho asfáltico
a rebentar cabeças;
espelho concrético
a embotar meus olhos
com documentos,
com fotocópias,
com seus livros de expediente:
achei que desse espelho precisava,
mas não fiz dele,
como os todos de verdade,
utilidade, e coloquei-o debaixo
do braço:

"ah, um dia:
espelho de couro duro,
espelho chibático, espasmódico,
a dedilhar bachianas
por entre os calos".

eu preciso de lágrimas,
mas só vendem espelhos;
só vendem espelhos, os homens
a por nós no pescoço,
e não vão para a rua, como eu, debaixo
dos próprios braços:

"um dia eu serei meu,
e venderei uns braços
que embalem,
espelho que nos faça ver-nos;
derramaremos, então,
finalmente diante de nós mesmos,
a primeira lágrima
testemunha, minúscula,
efêmera, de um mundo
que acha
que a gente acha
que precisa dele".

rafael laete, 11/2009

baleia (na rua tomazina)

ao crack

sento-me, antônimo de mim,
nas pedras desse meio-fio abisso:
antônimo, anônimo, afônico,
sento sem teto,
sento sem tetas,
e pra que tetas, se já não tenho língua?
nem dentes,
pro meu pão agora outro,
duro como essas pedras,
de outro destino intestino,
um destino cala-fundo,
um nunca-mais destino.

de ontem eu já não sei;
dele só restou algo que lembra um rosto,
só sobrou soslaio do olhar,
só me sobrou noite atônita
de estupidez do dia,
embriagada de bebida primitiva-
mente contemporânea,
uma noite que me distancia das palavras;
uma noite, já não sabia de nada.
(aliás, o que é que eu sabia?)

me restou a calçada rouca,
paralítica,
infelizmente surda calçada,
calçada insone,
onde não-durmo
perto das mesas cheias,
catando nessas sombras bípedes
uma lembrança de mim:
nas risadas alheias,
nos medos das moças,
nos rostos que ainda existem,
a descascar promessas:
eles não são tão diferentes de mim,
à sua maneira:
eles não sabem me olhar,
e eu não quero me olhar.

um abraço eu roubaria da memória,
mas vivo no presente,
como os animais;
o amor me tiraria da sarjeta,
mas quando o tive não podia saber,
como as pessoas:
o amor e o abraço são agora
um casal bêbado
esfregando a madre de deus,
o amor é essa taça sem face de amigo,
o abraço é uma pedra no rio
(qual o nome desse rio?),
um rio que não lava pesares.

amor-verdade-eterna, meu amor cristalizado:
enfim, sós, eu e meu amor de pedra,
amor de pedra antônima,
talhada,
dos meios-fios precipícios.

rafael laete, 11/2009

ressaca

no cansaço não me falta justiças:
as de sexta vêm beija-flor,
silêncio no confessionário,
faca pro que já é sem alma.

estou cansado das justiças fáceis
das noites de sexta.

já as justiças de sábado
nascem do quem-quer-que-seja
da sexta, nascem onde-estarás,
nascem sem meus travesseiros,
sem meus antibióticos,
nascem cheiro de carta.

as justiças de sábado
nascem das mulheres de sexta,
vêm eu apesar de mim,
para que eu não esqueça.

estou farto das justiças confortáveis
(de falar de rios
que eu nunca
vi começo ou fim).

estou farto de pontificar la miseré
bebendo cerveja cara, farto
de recitar poetas gordos
nas bocetas magras.

as justiças de sábado
são jardim prum cigarro;
me fazem falar baixo,
falar manso.

as justiças de sexta,
as justiças comportadas,
me fazem falar alto,
vêm não-serás-poeta,
vêm só-beberás-vinho,

desembocam numa ressaca de sábado,
meu amigo,
destas que nenhuma sexta esquece.

rafael laete, 11/2009

ars poetica

fumar
cigarros
e beber
café:
nos serve a dois propósitos:
cagar
e escrever.

alguém tenha bondade
(ou inocência) suficiente, que diga:
"ambos vêm das entranhas".

quanto a mim,
que já não sou tão inocente,
que nunca fui tão bom,
me resta a ansiedade alcalóidica
de bicho-homem,
e só quero terminar logo essa merda de poema:
que o pudor de escrever não seja o mesmo de defecar.

rafael laete, 11/2009

sábado, 25 de abril de 2009

Todas

a alma não sangra

mas está além da pele

e por ela passam todas as facas



rafael laete, 04/2009

quarta-feira, 25 de março de 2009

À deriva

Acho que entendi por que as pessoas acham estranho que eu ande por aí à noite.
Entendo que as pessoas tentem imaginar os motivos que levam alguém a andar por aí sozinho tarde da noite contemplando fachadas, escrevendo em postes, assoviando, pulando os traços da calçada, e que esses motivos criados nas mentes outras não sejam dos mais reconfortantes. Afinal, “é preciso ser meio louco, ou estar bastante mal, ou ter más intenções, ou estar fugindo de algo”. Talvez tudo ao mesmo tempo, que tal? Mas eu não me sinto estranho, ou mal, nem estou fugindo, e tenho todas as melhores intenções, com minhas garrafas e com os poemas alheios, coisas que, pelo menos a princípio, nada têm a ver com o que faço com meus pés. Tenho as melhores intenções quando vejo a luz do poste iluminar uma rua molhada, numa árvore recém-implantada no cimento, nos cacos de vidro na calçada, nas futuras ruínas, nos panfletos, nos recados, nos amantes abraçados. Quantas pessoas passaram por aqui hoje? Onde está aquela casa da semana passada? Que tipo de gente mora aqui? A avenida é curta, mas são muitas as histórias. Não tem como não gostar disso, e é só esse o motivo.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Livros

minha preguiça literária talvez não seja tão aparente, mas ela existe, sim: gosto de poesia porque dá pra ler de pouquinho. e tem mais: com essa impressão de que tudo já foi dito e redito, ser um leitor dias-de-hoje não é fácil.

o único livro que li de verdade, assim, de cabo a rabo, foi a bíblia. tem uma história legal: genocídios, pragas, tortura, incesto, fim do mundo, e até mesmo uma espécie de Liga da Justiça com um líder zumbi superpoderoso que é pai dele mesmo! gostei que só. mas, de resto, não fico enrolando ao redor das letras; eu não gosto de ler. quando eu for dono do mundo, vou mandar filmar todos os livros legais.
 
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