domingo, 6 de dezembro de 2015

Pão com Queijo


O que colocou mesmo uma pedra em cima da minha fé foi a tentativa de me colocar para cima que o idiota do meu tio empreendeu quando uma vez eu estava meio na merda durante minha adolescência. Não sei, não lembro o que me deixava mal então; talvez o preço da coxinha ou da ficha do fliperama; talvez porque eu já fosse feio e burro demais. Mas é certo que meu estado ou o conselho em si não foram piores do que as consequências indesejadas do conselho. Acontece que o babaca me levou para lanchar no que ele achava que ainda era a Padaria Rosarinho - acredito, mas não tenho certeza, que já se chamava Rosarinho Delicatessen. No carro ele não parava de falar "o melhor sanduíche de queijo do reino que eu já comi". Aqui eu vou pular como é difícil estacionar ali pelas redondezas; o delicioso microclima da avenida norte; a oportunidade única de ver uma senhora vestida dos pés a cabeça de nylon, chamando o segurança de macaco enquanto sustentava que seu poodle também era gente e tinha todo o direito de entrar na padaria/delicatessen. Pois bem. Depois de uns trinta minutos a gente ainda esperava por uma vaga no balcão; havia vagas nas mesas, mas por qualquer motivo a gente precisava sentar no balcão. Logo descobri que era pra ficar enchendo o saco do cara que cortava o queijo, sem correr o risco de ganhar uma cusparada ou algo pior no pão. Aparentemente, há quinhentos anos, se colocava uma bola inteira de queijo num pão francês, isso só pra chamar aquilo de sanduíche de queijo do reino, então meu tio achou que era caso de simplesmente pedir mais fatias até acabar o queijo inteiro da padaria/delicatessen. O cara ficou resmungando durante todo o tempo em que operava sua mágica do sanduíche de queijo do reino, finalmente disse que mais do que aquilo não poderia colocar de queijo, e nos entregou os dois sanduíches, que conseguiram chegar frios e com um cheirinho de má-vontade. Graças a deus o imbecil do meu tio calou a boca quando começou q comer, mas isso durou pouco, porque "antigamente vinha mais queijo"; depois "o pão era maior, e mais gostoso". Então, silêncio. Pagamos a conta em silêncio. Brigamos com o flanelinha em silêncio. Voltamos para casa em silêncio. Essa foi a maior lição que eu jamais tive: se você cresce, sua boca também. Ele provavelmente queria me mostrar o lado lindo e maravilhoso da vida que podemos encontrar numa coisa prosaica como um pedaço de pão, mas acabou me mostrando como tinha envelhecido mal. Desde então recuso qualquer tipo de conselho, não por orgulho, mas por um misto de vergonha e pena.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

três poemas para maria

saiba, maria,
que não me canso.

as noites e os sons
são os mesmos.

tenso, ando:
esquecido nas entranhas
de um enterro.

tudo está frio;
eu, descontente.
mas não me canso.

a terra há de sarar feridas;
nossas bocas estarão abertas
para o que resta:

a chuva afogará o quintal
com suas próprias folhas
secas.

*

perceba, maria:
o mundo não presta.

não vale um tropeço.

é preciso ficar quieto
ou cantar.

espera o dia passar:
a noite reflete melhor
nossos sorrisos.

então me pegarás no braço
e partiremos,
e voltaremos
no espaço do terraço.

*

esqueça, maria,
não foi assim que aconteceu.

os dias passaram,
mas não têm culpa.

fiquemos deitados
pintando algo
nas rachaduras do teto.

vamos gritar,
mas correr,
e não morreremos.

estaremos em nós mesmos
e será assim que aconteceu.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O Grito

As capas dos jornais exclamavam os misteriosos crimes e a chuva que há três dias desolavam o bairro, derrubando barreiras e corpos, estes últimos então já em número de sete, entre pauladas e barro; pelo menos uma pessoa estava desaparecida. Assim foi recebido, pela cidade do Recife em sua precária ou imaginária junção de asfalto e lama, ao voltar de uma semana de folga. Chovia então mais do que nos outros dias. Tinha descansado e se livrado desse mundo, e toda a confusão e o cheiro de medo o deixaram quase doente.
Chegou no prédio, todo molhado, se sentindo mal, com uma ligeira dor de cabeça, cansado e com fome.
Se desfez das roupas assim que entrou no apartamento, quase com as portas abertas, e foi imediatamente para o banheiro, onde tomou um banho bastante demorado. O local onde o sapato ficou tornou-se uma poça de esgoto, que ele não limpou com uma mistura de raiva e indisposição. Jantou uma lasanha dessas de microondas, abriu um vinho vulgar, assistiu um pouco de um documentário sobre a primeira guerra e deixou-se dormir ali mesmo na sala, quase não sentindo, como se todos esses momentos fossem um só momento, o da lasanha o do vinho o da tv.
A chuva veio com o vento e ficou mais forte. A porta de vidro da varanda balançava, e um uivo feito de ar e rua vinha do corredor. Ainda assim ele não acordou, auxiliado involuntariamente pela viagem e pelo vinho. Entre uma e duas da manhã, ouviu o primeiro grito.
Pensou, ao acordar, que tinha sido apenas a sobra de um sonho. No momento, sem ideia da direção ou da duração do grito, encarou o ocorrido apenas como uma lembrança mal lembrada, a impressão de que o que ouvira, ouvira com outros dois ouvidos, uma alucinação, um curtíssimo pesadelo. Pensava nessas coisas enquanto tentava voltar a dormir, até que ouviu outro grito. Estava acordado e ainda chovia.
Se levantou e foi até o terraço. Assombrado pela chuva forte e pela luz dos postes, o chão lá embaixo estava vazio por completo. De som, nada parecia existir além da chuva no telhado de zinco da concessionária de veículos vizinha ao prédio, um som forte, que pareceu ruído branco, muito alto. Alguém de alguns andares abaixo, no prédio da frente, apareceu na janela, o que parecia confirmar o grito, e aí ouviram um outro grito.
Havia mais três janelas no apartamento, a do quarto, a do banheiro e a da área de serviço. Na confusão e no medo não conseguiu decidir qual seria a correta, e foi para a mais próxima, a do banheiro. Foi correndo até lá, apenas para descobrir que a pequena janela do lado do chuveiro servia para apenas uma coisa: descobrir que ela estava imunda. O ângulo em que ela abre é inútil para ver a rua. Viu apenas o céu alaranjado de tanta noite e chuva e ouviu outro grito.
Saiu do banheiro e foi até o quarto. Tinha esquecido a janela aberta, e o quarto era todo água, escorregou no azulejo molhado e caiu, mas não se machucou. Com o coração pulando, se levantou, foi até a janela, mas só viu um carro que passava na rua, rápido e insensível. Voltou com cuidado para a sala. A última janela ficava depois da cozinha, na área de serviço.
Atrás do prédio, uma casa abandonada há anos. O terreno é enorme e está tomado pelo mato. As áreas de serviço dos apartamentos ficam viradas para lá, o prédio quase de propósito virou suas costas para a a antiga mansão. O muro era alto, a rua, vazia: o lugar perfeito para uns gritos.
Enquanto se dirigia à última janela os gritos recomeçaram, com mais força e desespero que antes. Cada passo os traziam mais para perto. Chegou até lá com a determinação de também gritar.
Colocou a cabeça para fora da órbita do prédio, a chuva bateu com força no seu rosto, ouviu apenas mais um grito e não teve coragem de devolver. Depois nada.
A polícia só chegou uma hora e meia depois. Ele acompanhou da janela o trabalho do Instituto de Criminalística junto com outros curiosos do bairro. Era uma mulher, como havia suspeitado. Havia sido espancada e morreu em consequência dos ferimentos que sofrera na cabeça, de uma maneira muito parecida com as outras vítimas.
O sábado amanheceu e ele bebeu para dormir.
É mais ou menos isso que dirá para a polícia, se perguntarem a respeito da madrugada. Dirá com menos literatura, mas dirá. Oferecerá pães com manteiga e uns copos com café. Como de costume, não o prenderão.
 
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Este obra de Rafael Laete dos Santos, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.